Zamer – As Três Portas | 12 – O Baú

12 – O BAÚ

 

As ruínas do Templo da Glória eram verdadeiramente um espetáculo, Sonsor passou quase cinco dias naquele lugar mágico aprendendo sobre coisas que nunca imaginou ouvir. Aprendeu sobre o povo élfico, são sábios, tem cerca de um metro e oitenta de altura, belos e quase imortais, são possuidores de grande saber e quase todos os artefatos mágicos são oriundos de seus ourives. Sonsor sentiu-se profundamente atraído pelas histórias desse povo místico, Preciso conhecer pelo menos um elfo, pensou consigo mesmo enquanto ouvia Ashur lhe contar tudo que sabia a respeito desse povo.

– Sonsor, os elfos – disse Ashur enquanto caminhavam por um corredor que fazia uma curva sinuosa e um pouco íngreme para a esquerda – são os seres mais desenvolvidos de toda a Zamer, estão a tal ponto de desenvolvimento que se tornaram reclusos em seu reino nas profundezas da floresta de Abin – enquanto caminhavam Sonsor pode reparar que o corredor logo a frente terminava em uma varanda – preste atenção no que digo Sonsor, chegaremos ao final do corredor a tempo.

– Desculpe-me mestre – Sonsor disse abaixando a cabeça – é que eu li quase todos os pergaminhos sobre os elfos que encontrei e isso que o senhor está me dizendo eu já sei.

– Se sabe de tudo, pode ir embora e não precisa de mim como mestre.

Sonsor ficou corado da vergonha que sentiu no momento – Perdão mestre – disse com a voz baixa, quase que as palavras não saíram de sua boca. Ashur ofereceu o perdão com um gesto de cabeça.

Os dois terminaram de andar pelo corredor em silêncio até que chegaram a varanda, ela abria para fora, tinha a forma de meia lua e estendia-se acima das copas das árvores, a visão era deslumbrante. Sonsor conseguia ver toda a extensão do Bosque Velho, voltando o olhar para a esquerda ele conseguia ver apenas as pontas de alguns telhados de madeira, Ali está a vila, pensou sentindo um pouco de saudades, principalmente de sua casa e sua cama. Ele não sentia muito apreço pelos moradores tirando Glemir, mas mesmo assim sua cama era o que sentia mais falta ali no templo. Durante esses cinco dias ele estava dormindo em uma esteira tão fina quanto um couro de pardal, servia apenas para que ele não dormisse diretamente com o corpo na pedra bruta e fria.

– Sei que você sente falta do Vilarejo Naua, Sonsor – disse Ashur enquanto observava o garoto – mas agora eles não fazem mais parte da sua vida.

– Saudades deles não – respondeu Sonsor sem desviar o seu olhar – eles não merecem esse sentimento, tirando Glemir, é claro, mas sinto falta mesmo é da minha cama.

Ashur soltou uma longa gargalhada – Nada como um espírito jovem para fazer um velho rir.

Sonsor contemplou o horizonte e parou o olhar sobre quatro pequenas torres estendendo-se, da distância. As torres eram mínimas, mas Sonsor leu nos pergaminhos rasgados e sujos que ali deveria ser Nouza.

– Ali é Nouza, não é mesmo mestre?

– Sim, e você sabe que não deve nem passar por perto daquela cidade – o velho disse com um tom sério.

– Sim, senhor – respondeu Sonsor prontamente, sendo que em seu íntimo não fazia nenhuma questão de andar por aquelas ruas. Foi naquela cidade que sua mãe deitou com incontáveis homens, foi naquela cidade que nasceu do ventre de uma prostituta. Em Naua todos diziam que ele era a cara da mãe e, se andasse por aquela cidade, o reconheceriam, Olhe, parece com uma puta que comi anos atrás, se duvidar devo ser o seu pai, tinha medo de ouvir essas palavras.

– Para que eu tenha um pouco mais de segurança Sonsor, diga-me a respeito dos Pixie.

– São seres místicos como os elfos, mas de menor sabedoria, detém um grande conhecimento sobre as plantas e animais, podem ficar invisíveis somente dentro das florestas e matas, por isso não se atrevem a andar muito longe desses domínios, de todos os povos são os que eu devo mais confiar, são os guardiões das grandes portas.

– Muito bem, e sobre os anões?

– São de estatura pequena e seus cabelos e barbas são grandes e volumosos, são criaturas ambiciosas e nem um pouco altruístas apenas ajudam se tiverem algum interesse em troca, mas são os melhores escavadores de toda Zamer e possuem o maior conhecimento em relação ao trato de pedras preciosas.

– Impressionante, em cinco dias aprendeu mais do que eu esperava.

– Também estou impressionado comigo mesmo – Sonsor disse quase que como sendo um desabafo.

Os dois se entreolharam e sorriram. Sonsor olhou para a sua direita e pode ver o Mar do Norte, as águas estavam calmas e a costa não estava muito longe do templo, de longe ele via uma embarcação com suas enormes velas brancas se aproximando – É aquele barco que devo tomar mestre?

– Sim, o Esquilo Voador, o barco mais veloz que já vi em minha vida e o capitão mais competente de toda a Zamer.

– Mestre, parece que ele está parando um pouco longe daqui – Sonsor apertou os olhos para tentar ver um pouco melhor – ele está parando exatamente onde o bosque começa.

– Sim, a costa próxima ao bosque é repleta de corais e pedras, Esquilo Voador encalharia e viraria uma relíquia do mar se parasse mais perto.

Enquanto os dois viam a embarcação atracar em um píer precário próximo as margens do Bosque Velho, suas grandes velas feitas de pano branco começaram a se dobrar deixando os mastros de madeira de carvalho escuros a mostra. Igor Specht vinha ao encontro dos dois em sua forma alada voando por cima do mar verde das árvores, ele pousou no parapeito bem em frente a Ashur que gentilmente retirou um pergaminho que se encontrava preso a sua perna direita, assim que foi retirado o papel o Sr. Specht voltou a se transformar em sua forma humana.

– Mestre pelo que vi o barco está em ordens – disse o Sr. Specht.

– Sim, está tudo aqui escrito – respondeu Ashur enquanto lia a pequena carta – um barco para levar uma pessoa.

– Uma pessoa? – indagou Sonsor preocupado – pensei que iria com o Sr. Specht para a Bacia do Comércio, como irei fazer tudo sozinho?

– Calma, Sonsor – disse Ashur rindo do medo do jovem – Igor irá com você, como um pássaro de companhia empoleirado em seu ombro, não quero chamar muito a atenção, sendo que um barco contratado por um jovem rico já é muito chamativo por si só, imagine você acompanhado? – soltou mais uma risada – ficaremos assim, e Igor viajando com você nessa forma poderá coletar informações mais facilmente.

Sonsor soltou um suspiro de alívio – Então devo me apressar para chegar ao píer antes do sol se por.

– Sim.

– Mestre, irei voar diretamente lá para baixo, não gosto muito de andar por dentro dessas ruínas – disse Igor ao velho que respondeu com um aceno positivo de cabeça – já me bastou ter visto o teto na casa de Sonsor, não sou feito para lugares fechados, céu é bom – foi tão rápido que Sonsor quase não acompanhou com os olhos, ele se jogou do parapeito e em meio a queda se transformou e rodopiou por entre os galhos das árvores próximas e sumiu na imensidão do verde do bosque.

– Vamos, Sonsor – disse Ashur já se aproximando da porta e entrando novamente no corredor curvo.

Sonsor o acompanhou e os dois percorreram toda a extensão do corredor até chegarem a um pequeno vão com metade do teto aberto ao céu, o vão dava acesso para mais outros cinco corredores que serpenteavam por todo o templo. Sonsor seguiria para o caminho que o levasse para o bosque, mas Ashur disse para seguir em outra direção – Vamos aos meus aposentos antes que você parta – Sonsor ficou completamente entusiasmado com aquilo, nos dias em que ficou como hóspede e aprendiz direto de Ashur ele recebeu a recomendação de não entrar naquelas partes do templo. Apenas a sensação de poder ver os aposentos do grande mestre fizeram subir um arrepio pelas costas.

Andaram por dois lances de escadas que desciam em espiral e depois entraram em um longo corredor estreito que não cabia os dois lado a lado. O corredor estendia-se para o leste como se não possuísse um fim e também não possuía janelas, o ar ali dentro era pesado e úmido, Será que ainda estamos nas ruínas? Pensou ele enquanto caminhavam e as paredes de pedra começavam a virar barro batido e o chão que antes era de pequenos cascalhos fundidos deu lugar a mais pura e grosseira terra.

Quando começaram a se aproximar dos aposentos de Ashur, Sonsor conseguia sentir uma leve brisa e um ponto de luz mais forte do que as tochas vindos de algum lugar a frente. Ashur parou em sua frente antes que entrassem no aposento.

– Sonsor – disse virando-se com um olhar afável – você tem alguma dúvida do que deve fazer?

– Não, senhor – respondeu prontamente – impedir qualquer um que tente libertar Alvor.

– Ótimo, siga-me.

Os dois entraram no quarto e Sonsor ficou maravilhado, os aposentos de Ashur eram na verdade uma espécie de cratera cravada no centro do bosque. Uma cavidade grande o suficiente para nascer um enorme Pau D’Arco, uma árvore ancestral de grande porte, apenas o seu tronco possuía seis metros de diâmetro e seu tronco subia outros quinze, da base até a copa o tronco era liso e os galhos apenas desabrochavam em seu cume estendendo-se para todos os lados e desmembrando-se até cobrir mais de um terço da abertura da cratera. Sua folhagem era de um tom de rosa claro ao vermelho fazendo um enorme teto natural que dava a impressão que o céu se desdobrava mostrando o seu lado avesso, a cratera subia pouco mais de treze metros assim o cume de folhagens rosa avermelhados de quem olhasse por entre as outras árvores do bosque pensaria que seria um arbusto.

O chão do quarto de Ashur não era de terra batida grosseira como no corredor que a ligava ao templo, mas sim um belo piso com várias pedras lisas cor de opala de quinze por dez centímetros cada uma. Na extremidade oposta a entrada tendo como apoio o tronco da árvore e a crosta superior da cratera um pequeno teto feito de madeira de pinheiro claro cobria uma pequena área de aproximadamente cinco metros de comprimento por três de largura, o suficiente para abrigar uma cama confortável de penas de ganso coberta por uma manta de linho grosso cor carmim e uma enorme colcha de retalhos para fugir do frio. Havia também um enorme baú de madeira de acácia de um metro e oitenta de comprimento por quarenta centímetros de largura por vinte de altura com as quinas reforçadas com ferro, o baú aparentava estar velho e desgastado mostrando várias rachaduras em sua superfície e muitos pontos de ferrugens, principalmente nos ferros da base do móvel.

– Essa árvore é o coração do Bosque velho – disse Ashur contemplando-a – na construção do Templo fizeram esse corredor para que os nobres com os seus sacerdotes caminhassem no escuro até chegar nesse ponto claro para poderem rezar pelos seus deuses.

– É linda, nunca antes tinha visto uma árvore tão majestosa como essa – os olhos de Sonsor arregalaram-se para ver ao máximo – como eles a chamavam nos tempos antigos?

– Dama da Floresta.

Sonsor caminhou como se estivesse em transe até o tronco e pousou a mão na madeira áspera – Prazer em conhecê-la minha senhora – um vento vindo do sul fez as folhas da Dama da Floresta balançarem e um movimento uniforme e Sonsor quase teve a sensação que a árvore lhe fazia um cumprimento gracioso retribuindo seus comprimentos.

– Os senhores do passado erram em rezar por deuses, essa árvore é um espírito belo e majestoso – disse Ashur enquanto caminhava em direção ao baú – venha aqui Sonsor e abra esse baú, já estou um pouco velho e ele já é muito baixo para que eu possa me curvar.

Quando ele chegou em frente ao baú reparou que os ferros que reforçavam suas quinas não tinham junções ou pontos onde foram usados pregos, o ferro era uma peça inteira que abraçava todas as quinas da madeira trabalhada, Sonsor ficou pasmo – Como irei abrir isso, senhor?

– Lembre-se do que leu.

– Lembrar-me? – Sonsor o olhou intrigado.

– Do que adianta ler e deixar o conhecimento fluir como um rio e não o retê-lo – fez uma pausa e reparou no semblante do garoto que demonstrava que estava pensando em cada palavra – deve-se ler e represar – Sonsor repetia as palavras com ele – cada livro é uma nascente e devemos guiá-los a nossa represa – os dois falavam como um – quanto mais retermos maior e mais forte nós iremos ser.

Sonsor começou a apalpar cada canto do baú e a examina-lo tentando encaixa-lo ao que tinha retido em sua memória.

– Não foi feito por mãos humanas – disse ele observando a madeira – está muito lisa.

– Bom.

– E também não foi feito pelos anões, o ferro está impecável, mas não existe nenhum ornamento, não há nada que mostre a ostentação dos anões.

– Bom.

– É mágico, aparenta não ter vincos, aparenta… – pensou por um breve momento – é élfico.

– Muito bom.

– Engana os olhos – e começou a empurrar o baú – só irá mostrar sua real forma quando estiver sob a luz do sol.

– Excelente – ele está quase pronto, pensou Ashur satisfeito – e porque os elfos fazem assim?

– Seus tesouros geralmente são guardados nas partes mais profundas de seus castelos, e longe dos raios solares, enfeitiçam para enganar, os tesouros no escuro parecem lixo e o lixo tesouros – o baú se encontrava já sobre a sombra dos galhos da Dama da Floresta – assim eles protegem seus tesouros e os que roubam só veem o erro tarde demais – conseguiu colocar o baú debaixo dos raios solares – mas claro, que se pode usar um mesmo feitiço para vários fins diferentes.

Com o toque dos raios solares o baú mostrou uma pequena fenda no seu centro, de onde era possível encaixar três dedos e abrir uma tampa.

– Nunca esqueça que a maior força de um homem é o que ele retém em sua mente – Ashur pousou sua mão em sua cabeça – conhecimento é poder.

Nunca me esquecerei disso mestre, pensou Sonsor olhando seu velho mestre que muito o ensinou em pouco menos de cinco dias – O que tem aí dentro mestre?

– Não sei, nunca o abri – disse com um tom de voz melancólico – este baú foi feito assim que a batalha do império antigo terminou e permaneceu fechado até hoje, em minha humilde opinião, acredito que estava esperando que você o abrisse.

– Não entendo mestre.

– Apenas abra e mate a minha curiosidade sobre o que há aí dentro – disse brincando com Sonsor.

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