Zamer – As Três Portas | 10 – A Porta de Bronze

Olá, meu bom leitor!

Hoje vocês vão conhecer o reino Pixie e a Porta de Bronze, mais elementos para essa mistura que já está bem recheada.

Tenha um ótimo Ponto para Ler!

Zamer – As Três Portas | 10 – A Porta de Bronze

Na extremidade leste de Zamer, entre as Montanhas de Ferro e Gelo e vales onde o Rio Comprido percorre uma formação de montanhas em forma de “V”, emergia na paisagem que se estendia mais de vinte quilômetros a frente. As montanhas abraçam uma enorme e densa floresta temperada decídua, com lindos bordos, carvalhos, castanheiras, pinheiros, abetos e cedros, suas folhagens vão do tom verde claro ao escuro, tons de amarelo claro e amarelo queimado, havia também folhas laranjadas e de tons vermelhos claros. O musgo verde era predominante nos cascos dos troncos e quando mais dentro da floresta mais musgos, cogumelos e trepadeiras podiam ser vistos por todo lado. O chão era completamente coberto por um tapete de folhas secas que era renovado a cada estação do ano. A Floresta Desfiladeiro também possui uma das mais ricas faunas de toda Zamer com javalis, texugos, esquilos, cervos, ursos, leões da montanha, linces, coelhos, corujas e até pandas gigantes podiam ser vistos mais para dentro da mata. No seu interior, onde as raízes das árvores encontram a rocha fria das bases das montanhas, erguia-se um austero castelo de madeira que se erguia entre as árvores e a parede de rocha, usando ambas, árvores e rocha, como parte de sua estrutura, ali era o último lar dos Pixie.

A floresta não recebeu esse nome por acaso, ela começa ao nível das planícies que a separava das Montanhas de Ferro e Gelo, o nível do chão ia descendo como uma rampa, as árvores da margem da floresta possuíam modestos três metros de altura e as mais altas tinham quatro ou cinco, mas à medida que o chão descia as árvores subiam. De cima todas as copas estavam alinhadas, assim o ponto mais baixo da Floresta Desfiladeiro ficava trezentos metros abaixo do nível do solo das planícies e ali naquele ponto era onde a porta se encontrava protegida pelos Pixie.

– Ele está morto! – gritava um dos soldados – me ajudem rápido, ele está morto!

Os corredores estavam em total desordem, soldados da guarda juramentada vestindo seus coletes de ferro verde com folhas ornamentadas em seus peitos e usando elmos com pequenos ramos de rosas desenhados corriam de um lado para o outro.

– Alguém atacou a porta? – perguntava outro soldado Pixie correndo com a mão segurando o cabo da espada.

– Não sei ao certo – respondeu um outro soldado sem saber o que aconteceu.

A enorme porta de bronze fundido ficava dentro de uma pequena caverna situada nas profundezas da floresta no seu ponto mais baixo, um Pixie encontrava-se a sua frente jogado no chão com o pescoço aberto por um corte grosseiro, o corpo estava deitado de bruços e sua cabeça estava próxima ao ombro esquerdo ligada ao corpo por um pequeno pedaço de pele, as veias, tendões e nervos estavam completamente a mostra e o sangue já fazia uma enorme poça vermelha que se aproximava lentamente do bronze da porta.

– Rápido! Preciso de ajuda aqui! – gritava outro guarda ao lado do corpo no chão.

– Cuidado com o sangue! – gritou uma voz grossa vinda de longe de um corredor que dava acesso a caverna.

Sangue? – pensou o soldado – Cuidado com o sangue? – gritou ele de volta, mas sua voz se perdeu em meio à confusão que estava de soldados correndo para um lado e outro procurando o assassino.

– O sangue cuidado! Não deixe que… – A voz estava mais perto, mas se perdeu em meio à confusão e o soldado não conseguiu entender o final.

O dono da voz apareceu correndo por meio da confusão, era o Capitão Tenebrosi da guarda juramentada, um Pixie de braços fortes e definidos, grandes olhos azuis claros que mais pareciam dois cristais, seus cabelos brancos desciam soltos até seus ombros e estavam um pouco emaranhados, ostentava um belo cavanhaque em seu rosto. Sua armadura de placas era um verdadeiro trabalho de lapidação digno de reis, todo o ferro utilizado era de um tom que variava do ciano ao azul royal dependendo da tonalidade de luz que o ferro recebia e refletia seu sapato encouraçado com placas de ferro que era todo ornamentado com videiras e ramos de folhas em relevo que subiam até o seu coxote (série de placas flexíveis de ferro que protegem a coxa, joelho e tornozelo) onde se abriam flores. A couraça de sua armadura tinha um enorme cedro com raízes começando em sua barriga e seu topo abrindo-se por debaixo de seu pescoço, toda a árvore era feita de um ferro mais escuro que dava a impressão de que crescia e o dominaria com o tempo, no lugar do elmo usava uma pequena tiara trabalhada com várias formas de trevos de sete folhas com um rubi vermelho escarlate no centro de cada um.

– Não deixe o sangue tocar na porta! – gritou o capitão enquanto corria esbarrando em um soldado que lhe empatava o caminho – o sangue soldado impeça-o que toque…

Então o soldado lembrou-se das instruções, O sangue não pode tocar o cobre, o soldado tentou correr para impedir que o sangue chegasse à porta. O capitão Tenebrosi parou de súbito, reparou que o soldado que havia esbarrado a pouco estava com os olhos completamente negros, desembainhou sua espada e o atacou com um golpe alto mirando sua cabeça, outro soldado se jogou na frente e teve o crânio repartido em dois, pois não usava seu elmo, mais sangue foi jogado ao chão, o alvo primário do capitão correu em direção ao soldado que estava tentando impedir o sangue de tocar o cobre, em um movimento rápido Tenebrosi retirou uma faca do seu cinto e a jogou, a faca voou com precisão até acertar a nuca, o corpo caiu no chão debatendo-se e dando seus últimos espasmos, mais sangue foi jogado ao chão.

– Soldado impeça que o sang… – uma dor aguda atingiu sua perna esquerda, a ponta de uma lança fora cravada na junção de duas placas perfurando o músculo da batata de sua perna, um golpe preciso e forte que só teria sucesso se fosse realizado por um inimigo perto demais, ele caiu de joelhos no chão e virou o olhar para ver quem o atacara.

– O ciclo está chegando capitão, isso deve ser feito – disse um cabo com os olhos negros enquanto caminhava ao lado do capitão e ia em direção ao outro que impedia o sangue de tocar o cobre.

Não, respondeu Tenebrosi para si mesmo enquanto desferia um golpe baixo e desesperado com força o suficiente para decepar metade do braço e encravar a lâmina da espada até a metade do tronco do cabo, mais sangue foi jogado ao chão. Na força usada com o golpe ele caiu de peito no chão e deixou a espada encravada no corpo que caiu a poucos centímetros a sua frente – Malditas lâminas enfeitiçadas – praguejou enquanto começava a ficar tonto. Enquanto forçava-se para ficar consciente pode reparar o som das trombetas tocando e o número crescente de soldados correndo a sua volta, O sangue impeça… Tentou dizer, mas não conseguia, antes que desmaiasse viu o soldado que antes impedia o sangue de tocar o cobre levantar com os olhos negros e com uma faca na mão cortar a própria garganta, mais sangue foi jogado ao chão e dessa vez tocou o cobre, via a porta de cobre derreter e sugar todo o sangue que estava no chão e depois o líquido de cobre ensanguentado infiltrou-se no chão sem deixar nenhum sinal que antes ali estivera molhado com o vermelho vivo, Tenebrosi fechou os olhos.

Quando voltou a acordar estava deitado em seu quarto, sentia o corpo dormente por causa do vinho morno fervido com erva medicinal. Um dos médiuns do castelo estava sentado ao lado da cama com as mãos estiradas por cima do ferimento curando com orações, na cômoda próxima a cabeceira estava um jarro com o vinho morno e um copo de latão. O médium encheu o copo e o ofereceu a Tenebrosi quando percebeu que ele havia acordado – Capitão beba um pouco, para apaziguar a dor – levou o copo à boca dele e o ajudou a manter a cabeça um pouco erguida – A lâmina quase atravessou sua perna, e temo que o senhor não recupere totalmente esse ferimento.

– É apenas um ferimento material meu bom Sanitas – respondeu o capitão ao velho médium de corpo esguio e fraco, não possuía mais cabelos ou barba na cabeça, seus olhos eram de um tom azul cinzento e demonstrava o cansaço de uma vida, Sanitas carregava o peso de longos duzentos e quinze anos. Um Pixie normalmente vive aproximadamente cento e sessenta anos, o médium vestia uma longa túnica de seda cor amarelo quase branco sem mangas. Em seus longos braços ostentava uma dúzia de pulseiras que se prendia desde o seu braço até o seu antebraço e um anel em cada dedo, cada ornamento representava um título diferente que adquiriu ao longo de sua vida tanto por estudo ou grandes feitos – mas me diga com sinceridade, a porta foi aberta? Estava desmaiando no momento e não confio muito em minha memória.

– Nobre capitão – disse Sanitas com a voz rouca – a guarda juramentada não conseguiu proteger a porta de bronze, ela realmente foi aberta, para o nosso infortúnio.

Com a confirmação do que temia Tenebrosi sentou na cama com um movimento rápido como se fosse levantar e sair correndo para impedir qualquer outra coisa, mas foi retido pela dor vinda da perna esquerda.

– Quanto tempo eu fiquei desacordado? – Perguntou passando a mão trêmula por causa da dor por cima do linho que cobria o ferimento

– Dois dias, senhor – disse o médium enquanto enchia o copo com mais vinho morno – beba mais esse copo, ajudará com a dor.

Tenebrosi pegou o copo de latão e o bebeu de uma vez deixando um fio de líquido roxo esverdeado escorrer pelo canto de sua boca – Preciso ver como está à guarda e falar com a rainha Regalita – disse devolvendo o copo a Sanitas.

– A guarda foi passada para o comando do capitão Claritato e por ordens da rainha não há mais nem um Pixie dentro da caverna para não passarmos pelo mesmo episódio – Sanitas o informou pegando o copo e o colocando em cima do criado mudo – o senhor também já foi convocado para comunicar sobre a falha de segurança perante o conselho quando estiver recuperado da perna.

– Falha de segurança? – disse em tom enervado – Sanitas aquela “falha” foi ocasionada por alguém de dentro, não foi uma ameaça externa, eu sei, pois os soldados que se rebelaram estavam com os olhos negros como carvão – fez uma pausa fitando os olhos cansados do médium – você sabe melhor do que ninguém o que isso significa.

O velho pensou e repensou em cada palavra que Tenebrosi havia dito, Olhos negros, pensou enquanto fitava um anel em seu dedo indicador direito – O senhor tem certeza do que diz, ou foi alguma alucinação ocasionada pela lâmina enfeitiçada da lança?

– Eu vi um soldado com os olhos negros antes de ser ferido, meu bom Sanitas – disse com um tom seco tanto pelo ocorrido há dois dias como pela dor na perna.

Olhos negros, o médium repetia as palavras em sua mente enquanto olhava o anel de ferro negro liso sem ornamentos, o ferro usado para a fabricação era o mais simples, mas sua forja era uma das mais elaboradas, no processo de aquecimento era usado fogo laranja e o ferro derretido era mantido sobre encantamento durante uma quinzena, depois era esfriado por choque térmico e aquecido novamente sete vezes, quando era finalmente esfriado para ficar em sua forma definitiva era utilizado às lágrimas de uma mãe que perdera seu filho no nascimento, assim ele ganhava a rigidez da perda e a cor negra do sofrimento e representava que seu portador tinha conhecimento sobre os feitiços escuros e proibidos. Um anel raro para um conhecimento raro, apenas dois médiuns o possuíam no reino Pixie no momento e um humano que há muito tempo tinha ganhado um.

– Peço desculpas desde já, meu senhor – falou Sanitas ainda olhando seu anel – se não for querer saber muito, mas como o senhor sabe sobre os olhos negros?

– Meu bom Sanitas, não são somente os médiuns que perdem um relativo tempo lendo pergaminhos e livros empoeirados – respondeu prontamente – pelo que percebo você pensou o mesmo que eu – fez uma expressão de satisfação – não é mesmo?

O velho médium levantou-se rapidamente e dirigiu-se para a porta – Meu senhor, peço que repouse hoje e amanhã e posteriormente estará em condições para se apresentar ao conselho, mandarei que tragam mais vinho morno para as suas dores e mais tarde um aprendiz se apresentará para trocar os curativos – fez um gesto cordial de despedida e sem querer deixar tempo para uma resposta Sanitas já ia fechando a porta quando ouviu a voz de Tenebrosi soar calma e com um resquício de acusação.

– Vou tomar essa resposta como um sim.

Sanitas fechou a porta fingindo que não tinha escutado as últimas palavras, Ele sabe demais, pensou ele enquanto caminhava em direção à cozinha para mandar prepararem um vinho morno para o capitão, Um vinho morno que lhe dê bons sonhos será o ideal para as suas dores, pensou, deixando escapulir um pequeno e baixo sorriso malicioso.

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