Um conto sobre amor e guerra – Parte Quatro

Olá meu bom leitor.

Mais uma semana e mais uma parte do conto que está dando o que falar, sinceramente, nunca pensei que escreveria um conto que teria tanta repercussão.

O que isso quer dizer? Que sou a personificação da realização pessoal. Este blog é algo que faço com o maior carinho e prazer do mundo, o meu intuito sempre foi o de escrever com qualidade (na que eu posso realizar é claro XD).

Muito obrigado a você que está me acompanhando neste pequeno blog, a sua opinião e crítica sempre foi levada em conta, você é o combustível que faz com que o Ponto Para Ler continue vivo. Meu mais sincero agradecimento.

Sempre leio os e-mails, então para quem quiser: paulohcsouza@outlook.com

Agora deixando de lado a melosidade, segue a parte quatro (e penúltima) do conto: Um Conto sobre amor e guerra.

Segue os links para quem não leu os outros:

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Tenha um ótimo ponto para ler!

Um conto sobre amor e guerra – Parte Quatro

ALTENOR

– O que aconteceu com o meu povo? – perguntou Altenor um dia depois de ser quase enforcado.

– Estão todos dispersos, meu senhor – respondeu Lusiatan. Antes da batalha de dois anos atrás, Lusiatan servia o rei como primeiro coronel de campo, um posto de alta patente, importância e muita confiança de Altenor. Foi ele que viu o rei ser ferido. Na angústia de tentar salvar seu rei, ele foi atingido por um machado que lhe deu a assustadora cicatriz. Lusiatan foi capturado, obrigado a trabalhar como escravo de guerra e humilhado até conseguir fugir em uma noite sem lua – Os que puderam fugiram – continuou ele dizendo – alguns são mantidos como escravos, os homens fazendo trabalhos braçais e as mulheres como companhia de cama para aqueles sem alma.

– E as crianças, o que aconteceu com elas? – perguntou o rei aflito.

– Todas mortas e jogadas no rio para as piranhas se alimentarem de suas carnes.

Um silêncio pesado e profundo permaneceu durante alguns instantes enquanto Altenor pesava, em sua mente, todas as informações que havia recebido desde a última noite.

– Tudo isso foi ordem do Touro? – perguntou Altenor com a voz pesada.

– Sim, meu senhor – Lusiatan engoliu seco antes de continuar – posso lhe assegurar que assim que ele venceu a batalha ele mesmo quis dar as “lições de conduta”, como ele se referiu as torturas, “lições de conduta para aprendermos quem é o novo rei”. Muitos morreram durante essas “lições”.

– É muito triste saber disso tudo meu nobre coronel, mas devemos deixar o medo de lado e recuperarmos nosso reino.

– E como faremos isso, meu rei?

– Faremos da seguinte maneira: primeiro mande pessoas para todos os cantos do reino com a seguinte mensagem “o rei retornou”, e deixe que contem a bel prazer tudo o que aconteceu ontem a noite sobre o meu enforcamento e como a árvore quebrou. Isso será bom para dar asas ao imaginário na cabeça do inimigo, o povo aumentará e fantasiará a história e isso irá nós dar certa vantagem.

– Mas que vantagem será essa, meu rei? Desculpe-me a pergunta.

– Não há do que se desculpar coronel, imagine comigo. Meu corpo desapareceu após a batalha e ninguém havia me encontrado, pois eu estava sob os cuidados da mais bela das criaturas vivas, mas isso não vem ao caso agora. O que importa é que por causa disso, e se eu conheço bem Meriados e espero conhecer, ele está com medo. Como nunca fui encontrado ele sempre vai ter uma dúvida em sua mente, “e se ele estiver vivo?”.

– Então ele sempre teve essa dúvida, bem, pelo menos eu teria, ou ele pode estar morto ou pode estar vivo. Por mais que a chance de estar morto seja maior, eu, como um rei usurpador, só descansaria se visse o corpo do meu inimigo morto.

– Exatamente! – exclamou Altenor – mas independentemente de ele ter a certeza ou não de eu estar morto, a minha armadura foi vista novamente e um ponto de esperança, por menor que seja, pode ser a mais forte das armas. E Meriados sabe disso.

– Meu rei – Lusiatan mudou o semblante – me perdoe – se ajoelhou baixando a cabeça – eu deveria ter percebido que era o senhor, estava cego pelo ódio e movido pela vingança. Se o senhor ordenar que eu me mate, assim o farei por ter tentado matar o mais nobre dos reis que já viveu nas terras do ocidente.

Altenor o olhou por cima, mas não era a expressão de um soberano que olha para um vassalo traidor, mas sim para um vassalo da mais alta estima – A primeira coisa que você fez ontem foi se desculpar e, ontem mesmo, eu lhe perdoei, mas continue ajoelhado, coronel – Altenor retirou a espada da bainha – mas realmente não posso me esquecer do que fez a mim. Um prisioneiro que não teve o direito de um julgamento, apenas o da sentença – ele pousou a espada no ombro direito de Lusiatan que sentiu o toque gelado da lâmina na base do pescoço – você fez algo grave, tentou matar o seu rei – deixou que a espada pesasse sobre o ombro de Lusiatan que naquele momento pensava que ia morrer uma morte justa pelo que fez – olha para mim quando falo com você, coronel.

Lusiatan o olhou já com os olhos vermelhos e banhados em água, “estou pronto para o que a sua justiça me reserva, meu rei”, pensou ele enquanto olhava de baixo para a figura imponente de Altenor segurando o cabo da espada que repousava em seu ombro.

– Você cometeu crimes graves – continuou Altenor – graves contra um ser humano e graves contra o seu rei – o rei o fitou seriamente – mas você fez algo nesses tempos escuros que muito devo lhe agradecer, você protegeu o povo do reino da lebre dentro dos limites que lhe eram possíveis – Lusiatan o olhava incrédulo – levante – passou a espada por cima da cabeça a pousando no outro ombro – General de Campo Lusiatan.

– Não sou merecedor, meu rei – disse Lusiatan com a voz embargada.

– Claro que é meu bom general, quem sou eu para julga-lo por não me identificar de imediato? Foram dois anos de ausência sem ninguém me ver – Alternor permitiu-se um pequeno sorriso – e se você me desculpar como eu poderia reconhecê-lo agora sem o nariz que lhe era característico?

Os dois se entreolharam e riram.

O rei e o general passaram o resto do dia conversando e analisando como seria a batalha de reconquista. Analisaram, traçaram estratégias e simularam as mais diferentes, prováveis e improváveis situações que poderiam acontecer naquele cenário.

No dia seguinte, os mensageiros saíram da Mata do rei aos poucos, dizendo a todos que encontravam no caminho, tanto a convocação como o acontecimento do enforcamento.

Em poucos dias as pessoas peregrinavam de volta para a capital do reino, não de volta para suas casas, mas sim em direção a Mata do Rei. Todos movidos ou pela curiosidade de ver se era mesmo o rei que os convocava ou pela esperança de ter um homem corajoso para desafiar o Touro. Independentemente desse homem ser Altenor ou não, o que importava era que ele dava uma esperança vaga e um certo conforto em seus corações.

MERIADOS

O Touro andava de um lado para o outro do seu salão dando gritos.

– Encontrem esses desertores e os matem!

Os generais permaneciam calados.

– Melhor – ele parou e entrelaçou os dedos – esfole-os, retirem toda sua pele como a de um gato, e as pendurem nas paredes dos dormitórios dos outros soldados para que seja um aviso. Eu quero esses desertores mortos!

Os generais continuavam calados.

– E vocês, seus inúteis – Meriados olhou os três homens que estavam parados como estátuas no centro do salão – o que tem a me dizer sobre a Mata do Rei?

– Se não atacarmos logo, acredito que seremos subjugados em número, meu rei – disse o mais velho dos três.

– Já disse para tacar fogo – Meriados voltou a gritar – mas o que vejo quando acordo todo dia? – seus dedos entrelaçados estralaram com a força que ele os apertava – nem me respondam! Eu digo. Vejo aquela desgraça verde pela minha janela, e sei que lá dentro existe um homem que usa a armadura do Altenor. Vocês ao menos sabem o que é isso?

Os generais ficaram calados.

– Se eu não precisasse de vocês três, os mataria agora. Isso dá esperança a essa corja. Como acham que eu conquistei este reino?Tirei a esperança deles, pisei nela e a exilei. Mas agora aparece um zé ninguém usando as roupas de Altenor e convocando todos para uma guerra, isso é um absurdo!

– Iremos providenciar o incêndio, meu rei – disse o mais velho.

– Que comece hoje, quero que a noite seja vermelha. Amanhã será o solstício de verão, nada melhor para brinda-lo do que uma fogueira.

Os três generais saíram do salão e deixaram Meriados sozinho com seus pensamentos.

Meriados sabia que os soldados que desertaram não eram nem um oitavo do total do seu exército, “tolos fracos” pensava, por mais que as pessoas na mata começassem a ter um número maior do que o do seu exército, ele sabia que eles iriam perder. Seu exército era mais bem equipado e treinado, e aqueles tolos na mata eram apenas camponeses com pedaços de pau na mão.

No por do sol ele fez questão de acompanhar o seu exército até a margem da mata. Todos vestidos com suas armaduras que reluziam os raios vermelhos do sol poente, “o fogo já queima” pensou o touro andando atrás do enorme mar de gente que seguia a passos firmes segurando suas lanças.

Quando chegaram as margens da Mata do Rei todos pararam e um silêncio caiu sobre todos. Apreensivos todos olhavam para dentro da mata, que com o passar dos minutos ficava mais escura e aparentemente sem vida.

Meriados até chegou a duvidar dos boatos que chegaram aos seus ouvidos, ali olhando para a mata, ela não parecia tão ameaçadora quanto presumia. Ele era o único ali que apresentava um sorriso no rosto.

– Coloquem fogo! – gritou ele no seu desespero de querer ver a maldade consumir tudo.

Incertos da ordem os soldados seguiram devagar para perto das árvores e começaram a espalhar óleo nos troncos das margens e nas árvores mais para dentro. Assim que o óleo já estava espalhado Meriados fez questão de ir até a margem segurando uma tocha para dar o início a sua fogueira de boas vindas ao solstício de verão.

O fogo correu com uma velocidade surpreendente e em poucos minutos as árvores da margem já estavam estralando do fogo que as comia. Mas nada foi visto ou ouvido vindo de dentro da mata.

– Olhem! – gritou Meriados para os soldados – era tudo uma enorme mentira, o único rei que existe aqui, sou eu, o rei Touro!

Meriados já se deliciava ao ver que não existia ninguém na mata e que não encontraria resistência, até que ouviu um grito vindo de trás do seu exército.

Na retaguarda uma onda de pessoas atacou o exército do Touro. Todos com uma ferocidade absurda, para o espanto de Meriados eles não carregavam pedaços de paus, estavam armados, tão bem quanto o seu próprio exército.

Gritos foram ouvidos e a noite começou a feder a queimada e a sangue. Alguns poucos do exército do Touro se renderam e juntaram forças ao outro e juntaram suas forças e vozes ao gritar “Altenor!”, e “o rei retornou”. Meriados foi tomado por um medo descontrolável, de um lado a batalha acontecia brutalmente e do outro o fogo consumia tudo – Salvem o seu rei! – gritou ele.

Apenas um soldado que estava perto o ouviu gritando por ajuda, o soldado o olhou e respondeu – Altenor! – Meriados ficou branco – o rei retornou! – e foi em direção a Meriados para ataca-lo.

Então tudo ocorreu rapidamente e em série. Ao olhar para o soldado vindo lhe matar, Meriados correu em direção ao combate, mas parou de súbito, pois cavalgando e abrindo espaço ele viu, não um homem usando a armadura do rei da lebre, mas o próprio Altenor vivo. Ele cavalgava tão elegantemente quanto era possível em batalha. A sua esquerda estava um homem com a cara desfigurada por causa de uma cicatriz e a sua direita, o seu arauto “ele me traiu”, pensou Meriados enquanto se virava desesperadamente. No seu encalço estava o soldado que, com habilidade, lhe encravou a espada no estômago. E esse foi o fim de Meriados, o rei Touro.

Quando ele caiu imóvel no chão e Altenor parou sobre o seu corpo imóvel, um tremor foi sentido no chão, e de repente todas as árvores começaram a se balançar e se curvar até bater as suas copas no chão e assim fizeram até apagar o fogo.

De lá de dentro dois homens saíram, um era alto, de constituição forte, cabelos negros salpicados de fios grisalhos e uma barba protuberante que lhe cobria o pescoço. O outro aparentava ser mais novo, um pouco mais baixo, mas parecia ser tão robusto quanto o mais velho, seus cabelos eram também negros e tinha uma barba cerrada.

– Olhem! – gritou Altenor – vejam todos, esse é Sanvor, o senhor Sanvor, o Senhor das matas e florestas da Terra Ocidental, meu bem feitor e amigo do Reino da Lebre.

Naquela altura ao ver o movimento das árvores, os que ainda lutavam se renderam de medo, e assim nas vésperas do solstício de verão os dias escuros chegaram ao seu fim.

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