Projeto Uns e Outros | Monteiro Lobato + Ana Maria Gonçalves

Oi pessoal!

Promessa é dívida! Eu disse que hoje teríamos dois posts do Uns e Outros e por mais que já esteja de noite vim aqui cumprir o que prometi.

Para ficar em dia, li o conto Negrinha escrito por Machado de Assis que conta a história de uma garota negra que nasceu em uma cozinha e era proibida de tudo por conta da patroa da mãe, que não gostava de barulho de criança. Pelo menos era essa a desculpa dada pela Dona Inácia para as agressões constantes. A escravidão havia sido abolida há pouco tempo, mas a patroa ainda tratava a todos como se fossem escravos, com punições menores como beliscões e cocres, mas não faltava criatividade na hora da punição.

Quando Negrinha fez quatro anos, sua mãe morreu e Dona Inácia passou a ser a sua referência de cuidadora, mas ela impede que a menina brinque ou faça qualquer coisa mantendo-a sentada e quieta ao longo do dia. Cada vez que ela fazia alguma coisa que desagradava a dona da casa, a punição vinha das formas mais criativas, como no dia que ela colocou um ovo cozido quente dentro da boca da criança.

Acontece uma nova situação que mostra para Negrinha que Dona Inácia não tem problema apenas com crianças, o problema dela é com a própria garota. Ela não tem discernimento para entender que a diferença de tratamento tem relação com a cor de sua pele, mas esse fato muda sua vida completamente.

Monteiro Lobato é polêmico porque o consideravam racista, mas esse texto aborda o racismo existente n sociedade de uma forma que não o embeleza nem o aponta como algo bonito. Ele mostrou que ele destroi vidas e quem o praticava, principalmente, naquela época seguia normalmente como se nada tivesse acontecido. Há críticas até a Igreja, cujo padre fechava os olhos para a falha de caráter de Dona Inácia pelas contribuições que ela dava.

A questão de Negrinha, para mim, complementou uma conversa que tive com minha mãe mais cedo. É inevitável que você vá tendo mais entendimento de como a vida funciona com o tempo. Cada passo da caminhada te revela alguma coisa e depois que você compreendeu algo não tem mais como voltar atrás e deixar de entender. Só te resta então lidar com aquilo de três formas: Aceitar e tentar levar a vida com leveza, virar uma pessoa cruel porque o mundo já é assim mesmo ou surtar (e aqui englobo todos os tipos de doenças possíveis como depressão, esquizofrenia e tudo o que faz com que a pessoa fuja da realidade). A Negrinha reagiu de uma dessas formas, mas não vou contar porque é spoiler 😡

Quando eu pensei que já tinha sido agraciada com um ótimo conto original e que a releitura não podia ser melhor, vem a Ana Maria Gonçalves e mostra com o seu Negrinha! Negrinha! Negrinha!, que o racismo continua existindo firme e forte, mas as pessoas tentam escondê-lo a todo custo, porque não é bom para a imagem de ninguém.

Aqui vamos entrar em uma reunião entre a mãe e a madrinha de Maria, que passa por vários episódios de racismo na escola em que estuda, e a diretora da escola para decidir como resolver os problemas que a filha vem passando. Maria é negra e foi adotada por Lúcia e André, Angélica é sua madrinha e a professora Patrícia relatou a ela que algumas amigas fizeram Maria comer um ovo na frente de todas inspiradas no conto Negrinha, que estava no quarto do irmão.

Lúcia é a personificação da culpa, achava que colocar a filha para estudar em boas escolas e vesti-la com as melhores roupas a protegeriam do racismo. Não conversou sobre o assunto com a filha por achar que ela perguntaria quando estivesse pronta e não percebeu que a mudança de comportamento da filha e a falta de vontade de ir a escola eram culpa dos ataques que vinha sofrendo.

A forma como Ana Maria abordou o assunto e, principalmente, a reação de Lúcia após chegar ao ponto máximo da culpa me fazem pensar que até o momento esse é o melhor conto da Coletânea. A forma como ela aborda o racismo, que é tratado o tempo todo pela escola como brincadeira de crianças mostra como o conhecimento de que praticá-lo é ruim faz com que as pessoas deem outros nomes para o que acontece.

No começo eu fiquei um pouco confusa com os nomes e a situação, mas conforme as coisas foram andando deu para entender com clareza o que aconteceu e o papel de cada um no enredo. Quantas mães não se culpam quando os filhos escondem situações de racismo ou outras coisas ruins delas? E quantas vezes as próprias vítimas se culpam achando que elas que são erradas e não quem as ataca… É tudo muito real, cheio de recados e realidade, o dinheiro não protege ninguém do racismo, ele só o torna algo velado, porque todos ali tem consciência de que ser racista é socialmente condenável, além de ser crime, mas ainda assim não deixam de ser racistas. Como se a cor da pele já mostrasse que alguém é superior ou inferior a outrem.

Ainda há muito o que avançar, mas esse conto mexeu forte comigo.

Nota: 9,5.

Até a próxima!

Ana Paula

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