Ponto Paralelo | Tatiana Nascimento

Olá, meu bom leitor.

Se preparem para uma das entrevistas mais legais que já tive aqui no Ponto. As palavras da Tatiana Nascimento me deram um tapa e ao mesmo um ensinamento absurdo de assuntos da nossa literatura que eu preciso aprender muito mais.

Os livro da autora podem ser comprados pelo site da Padê ou em feiras de publicações independentes, em julho ela estará nas feiras dente (04 e 05 de julho) e do quadrado (14/07, no museu vivo da memória candanga do núcleo bandeirante, satélite onde Tatiana cresceu!).

Ponto | Desculpa o clichê, mas você sabe como quase toda entrevista começa. Me diz quem é Tatiana Nascimento, o que os leitores do Ponto tem que saber sobre você?

Tatiana | tô aprendendo muitas coisas sobre essa tal de tatiana nascimento. inclusive que sou bem mais que esse nome, bem mais que a pessoa que as pessoas veem. bem menos, também, do que o que as pessoas veem. talvez eu saiba melhor quem eu sou quando fecho os olhos pra me enxergar. acho que quem lê o ponto paralelo pode saber isso de mim: sou um monte de pessoas, inclusive a que as pessoas não veem, mas também essa palavreira – compositora, cantora, poeta, editora – que tanto se vê.

Ponto | Uma coisa que nunca sai da minha cabeça, e que eu quero muito que ainda aconteça, é aquele café/açaí que tentamos marcar para conversarmos sobre literatura negra. Nos passe um pouquinho da sua visão sobre isso.

Tatiana | (tem um açaí bem delícia na feira do guará. vamo marcar um fim de semana lá?) pra quem tá trabalhando com a transformação das percepções/assunções tradicionais sobre literatura negra (uma gama que vai de “não existe” a “é invisível” – que significa ‘invisilibilizada’ – passando por “é uma literatura de resistência/dor/revolta/denúncia), ou com a inclusão de livros de autoria negra em seus projetos, ementas, estantes, é importante saber: existe uma mirada branca, heterocisnormativa, de um tipo específico de literário/letramento, que monta as lentes pelas quais vemos o mundo. pra essa mirada/lente, a literatura negra responde a estereótipos. é um texto que grita, é um texto que reclama, que denuncia, que sangra, sente dor. isso acaba conformando expectativas hegemonizantes sobre toda a literatura negra, invisibilizando a complexidade temática, formal, estética, regional da produção literária negra no brasil. se um texto de uma pessoa negra não fala sobre o esperado, corre o risco de não ser considerado literatura negra. na contramão, se uma pessoa não-negra escreve um texto, digamos, sobre resistência negra, num romance, isso perigando ser considerado literatura negra. a minha visão é um sonho: que a gente possa escrever sobre o que quiser sem ter nossa negritude questionada, e que mais coisas escritas sobre nossas heranças silenciosas (o jeito de uma avó fazer feijão, como na poesia de pollyana marques de goiânia; a boca preta cheia de ar que despista o espanto na poesia de kika sena, de alagoas; os corpos pretos emergindo das ondas cobertos de pérolas oferecidas por odoyá na poesia do falecido daniel marques, de são paulo; o mar engolindo o cheiro de terra molhada na poesia de esteban rodrigues, de salvador; as ondas-de-areia-dunas-de-sol-sopro-de-mar-raios-de-vento na minha própria poesia) ou apenas não óbvias sejam lidas como escritas pretas. que a gente não tenha que ficar sangrando/reclamando/denunciando o tempo todo pra que sejamos ouvidxs/lidxs. que nossa poesia, nossa prosa, nossa epistemologia seja livre pra ser o que nós quisermos y assim respeitada.

Ponto | O que sempre me surpreende nos saraus que você recita, que eu já puder ver dois (e indico a todos os nossos leitores de verem) é a sua presença e a força da sua poesia, eu queria muito poder olhar pelo buraco da fechadura da sua mente e saber suas inspirações.

Tatiana | que gracinha essa imagem da mente ter um buraco da fechadura pelo qual olhar <3
eu tenho uma cabeça extremamente analítica-sensível: sol e vênus em aquário, ascendente lua mercúrio marte em peixes. sei respirar embaixo dágua. daí que tudo me inspira. viver entre dois mundos tentando falar pra mim de cada um, pra cada um sobre mim, pra cada qual sobre o outro. pássaros voando no céu me inspiram. estar apaixonada também. juntar palavras a partir do som também. mas num acredito nessa coisa de ter que estar inspirada pra escrever não. o que tenho é um pacto de bem-estar y autocuidado: escrever um poema novo todos os dias. estando ou não inspirada. manter minha linguagem lubrificada. a utopia das palavras me mobiliza (pensando inspiração como parecido como mobilização), esse sonho de que conseguimos nos comunicar, expressar o sentido/pensado pra que chegue no ouvido da outra pessoa fazendo algum sentido. a impossibilidade me mobiliza. ficar tentando. buscando os melhores arranjos. mexer com as palavras mesmo. é meu afã.
Ponto | Agora que já sabemos um pouco sobre você, não tem como não falar sobre isso, me diz como é ser a idealizadora/editora/fabricante dos livros da Padê Editorial e como ela tem aberto portas para as autoras e autores LGBT (eu sou meio perdido com a sigla, nunca sei direito qual é a correta para se usar, pode alterar para o correta se não for essa 😉 ).
Ponto | Uma das coisas que mais admiro na sua trajetória é a sua guarra e força com o movimento negro e LGBT. Me conta como você enxerga que a literatura pode ser ainda mais eficaz nessas causas, e como pessoas, que assim como eu, que simpatizam com as mesmas, podem ajudar mais.
Tatiana | para as duas perguntas | lgbt tá caindo em desuso porque tem uma ausência grande: de pessoas intersexo, de pessoas assexuais, de pessoas cuíer (queer). temos usado lgbtqi ou lgbtqia+, mas o que eu acho massa demais nesse rolet é que sempre vai mudar, sempre vai estar instável y algumas letras/palavras sendo substituídas ou transformadas, porque no fim das contas pra mim a luta da dissidência sexual em geral é mostrar a precariedade do sistema sexo-gênero heterocisnormativo dominante, mostrar a mentira de “só existem dois sexos”.
a padê começou comigo y bárbara esmenia, de sp, que topou o convite meio louco no meio do maior festival de mulheres negras do continente, o latinidades: “vamo montar uma editora pra publicar um monte de gente preta y sapatão nesses livros assim, tipo cartonera?”; depois agregou algumas das autoras publicadas (especialmente daisy serena de sp; nina ferreira que tá no prelo y já participou de muito mutirão de costura comigo; kika sena de quem lançamos “periférica”, lélia de castro também no prelo y parcerassa na produção de eventos), tamos cada vez mais um coletivo editorial.
y a padê é um laboratório do/no imaginário, eu acho, já que nosso ímpeto é publicar livros artesanais feitos por pessoas negras dissidentes sexuais (e/ou). sinto muita alegria com esse projeto. sinto que é importante pra “gente” ter um canal nosso de difusão de nossas histórias, nossas narrativas, nossos desmontes/remontes, espero que seja inspirador pra outras pessoas fundarem outras editoras dissidentes, temos muitos séculos de histórias sobre nós sendo contadas por saberes/vozes autorizadas (“especialistas”, “médicos”, “escritores”, “antropólogos”, “cientistas”, “juristas”) que nos retratam a nossa revelia, equivocadamente, de forma a se manterem hierarquizações, opressões, silenciamentos, inescutas. a padê é mais uma gota na tempestade do céu da disputa de narrativas. o trabalho que temos feito é selecionar textos que nos emocionam, que rompam com a estereotipia aguardada (e homogeneizante) de literatura negra, de literatura lgbt, y agora tamos frente ao desafio de, tendo sido selecionadas num edital de 30 mil reais, lidar com a megalomiania que nos fez aumentar de 44 pra 60 títulos o número de publicações. com esse bonde, formado por autorxs lésbicas, mulheres trans, travestis, homens trans, mulheres bissexuais, das quais 70% são pessoas negras, vamo lançar duas coleções novas na padê (que tem a odoyá, de poesia): a escrevivências, que é a coleção-geral y nome do projeto, em homenagem ao conceito de literatura-vida de conceição evaristo, y o selo otim, que é em homenagem a esse orixá transexual, y será a coleção específica dos livros feitos por autorxs trans e travestis. tem muita coisa linda entre os materiais selecionados.
espero que logo menos saia um “especial escrevivências” no ponto paralelo! porque isso é um fôlego que não temos ainda: difusão, inserção em mídias especializadas, distribuição. pra mim é muito urgente repensar como enxergamos essas produções. se ainda as consideramos literatura de protesto. se obras feitas por pessoas negras/lgbtqi que não são obviamente de protesto são lidas por nós, se são difundidas em nossos canais, blogs, rodas de conversa, presentes de amigx-ocultx… lembrando, né, que tem muita resistência em se escrever um poema sobre o jeito de temperar feijão ser um legado de família num panorama de colonialidade contemporânea pós-escravocrata que foi inaugurado pelo sequestro de nossa ancestralidade – parentes que muitas vezes desconhecemos, genealogias irrecuperáveis – pra alimentar o capitalismo racista que tinha não só fazenda de açúcar mas fazendas de estupro/reprodução pra gerar mais mão de obra escravizada, articulando assim a máquina de produção de riquezas a uma de heterocissexualização de reprodução compulsória. acho que a luta contra o racismo, a luta contra as lgbtqifobias são responsabilidade de todas as pessoas. o que o povo que ama literatura pode fazer, o povo não-negro, não-lgbtqi, é sacar como tem lido nossas produções, como tem difundido, que rótulos, que resenhas, que paratextos nos têm dedicado, se nos leem em nossas complexidades formais, estéticas, performáticas, temáticas, estilísticas, ou se só ficam garimpando poemas em que falamos sobre nossas vísceras.
no fim das contas esse exercício é um de desaprender o olhar colonial. reaprender (ou aprender por primeira vez) a nos enxergar também como sujeitxs. como produtorxs de epistemologias várias, como escritorxs/narradorxs de mundos outros, não só seres em referência/resposta ao mundo da hegemonia colonial, não só gente que escreve poesia antirracista. escrever sobre o cerrado é antirracista também. desmonta o estereótipo de que poesia bucólica tá presa a um século específico, a um corpo específico. escrever sobre amor ou erotismo sapatão é mais que escrever sobre buceta com buceta, até porque a visibilização cada vez mais forte de lésbicas trans tem ampliado as noções de corporeidade lesbiana, mas também escrever sobre a importância da avó que nos anos 50 usava calça. como isso foi herdado pela mãe que ensinou a filha a fazer tudo que quisesse com seu corpo: alianças entre mulheres. agora, cabe à crítica saber ler, né? escrever um bucado de coisa bem complexa, diferente, louca, ousada, ou apenas ancestralmente tecnológica, isso já tamo fazendo há séculos. mas quantas pessoas lembram de carolina de jesus por ter escrito “a noite está tépida. o céu já está salpicado de estrelas. eu que sou exótica gostaria de recortar um pedaço de céu para fazer um vestido”? y quantas lembram dela como “uma favelada que escreveu um diário”?
Ponto | Muito obrigado por ter participado desse ciclo de entrevistas no Ponto Paralelo, espero poder ter te dado mais um pouquinho de volume a sua voz. Para despedir dos nossos leitores, conta onde eles podem te encontrar nas próximas semanas e use este espaço para deixar uma mensagem que você ache importante passar para todos.
Tatiana | legal essa metáfora de “mais volume à voz”, é importante também pensar em como transformar as escutas. como tornar as inescutas em escutas. qualificar o sistema de recepção/intelecção. minha agenda de junho y julho tá cheia de evento legal, dia 16 tarei no bazar das meninas, no vicente pires, às 14h30, falando sobre escrita, negritude, autopublicação; 17 y 18, pra quem tá no rio de janeiro, faço uma oficina sobre cuíerlombismo literário (dê uma olhadinha no blog da escritora pra saber mais sobre o conceito) numa parceria com a editora kza1, y segunda um show de música+poesia no estúdio audio rebel, em copacabana, acompanhada da cibele minder, uma guitarrista sapatão feminista muito maravilhosa; dia 19 tô de volta ao DF, dessa vez naquela linda mostra de cinema feito por mulheres negras “visionária”, que tá rolando toda terça-feira na caixa cultura, às 19h, entrada gratuita (falo depois da seção de filmes). aí em julho tarei dias 04 y 05 na feira dente, participando de algumas mesas de debate y com um estande da padê vendendo nossos livros lindos; dia 14/07 tô na feira do quadrado de produção local, que vai rolar no museu vivo da memória candanga o dia todo (núcleo bandeirante). dia 20 tô na roda palavras diversas, um espaço literário dentro da programação do II congresso nacional da associação brasileira de famílias homotransafetivas (abrafh), com uma roda de conversa sobre literaturas marcadas (essas nossas, pretas, sapatonas, viadas, trans…) y tarde/noite de lançamentos de livros – tarei lançando meu livro novo, mil994, lá. dia 31/07 apresento a quanta! no sesc da 504 sul, a quanta é uma série de música e poesia ao vivo que reúne artistas LBTs do DF. beijo!!
Tenha um ótimo ponto para ler!

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