Ponto Paralelo | Rogério Bernardes

Olá, meu bom leitor.

Rogério Bernardes é poeta, mora em Águas Claras (DF) e tem dois livros publicados: Olhar de andorinha (2014 – editora Scortecci) e Cantigas de ninar dragões (2017 – editora Penalux). Prepara, no momento, dois novos livros, também de Poesia (uma terceira coletânea de poemas que encerrará a “trilogia alada” – andorinha, dragão e fênix – e um projeto que une Poesia e fotografia, em coautoria).
Muitos de seus poemas podem ser acessados por meio de suas redes sociais:
          Seu último livro pode ser adquirido diretamente com o autor (com dedicatória), ou na livraria virtual da editora Penalux:

Ponto | Eu queria que essa fosse uma entrevista presencial, para poder já te dar um abraço, mas como estamos fazendo de forma escrita, conta aqui para os leitores do Ponto quem é o Rogério Bernardes, o que precisamos saber sobre você.

Rogério Bernardes | Eu sou um poeta de origem humilde, nascido em São Gonçalo/RJ. Meu pai é português, tendo chegado ao Brasil com apenas 6 anos de idade, e minha mãe é do interior do estado do Rio de Janeiro, de uma cidade chamada Itaocara. Sou o mais novo de dois irmãos.
          Desde que me alfabetizei, sempre fui apaixonado pelos livros. Na verdade, mais do que entretenimento, eles foram o meu refúgio num mundo paralelo que criei para fugir das dificuldades econômicas da minha família e do próprio mundo à minha volta, que às vezes era cruel em diversos níveis. Eu largava tudo para poder ler mais um livro da Coleção Vaga-Lume, por exemplo. Já na adolescência, eu começava a escrever poemas, mas sempre os considerava muito ruins – vivi uma adolescência repleta de problemas de autoestima e isso também refletia na autocrítica ao que eu escrevia – e logo depois os rasgava e jogava fora. Lembro que no ensino médio, numa escola pública de Niterói, onde eu estudava, havia um projeto de oficina literária que era o momento que eu mais esperava toda semana, Lá, eu podia ser livre para escrever e ser lido por iguais, outros alunos como eu e professoras que incentivavam a nossa criatividade. Participei de uma singela antologia chamada “Sociedade dos Poetas Novos” com um primeiro poema publicado.
          Após o ensino médio, eu praticamente havia parado de escrever, e assim foi por muitos anos, embora nessa mesma época eu tenha começado a ler mais Poesia e pude perceber que eu gostava de um gênero infelizmente considerado menor por muitos. Eu amo ler romances, biografias, contos e crônicas, mas a Poesia sempre me fascinou. É a Poesia que faz meu coração bater mais forte dentro do mundo literário.
          Já com mais de 30 anos, houve uma guinada em minha vida e eu vim morar nesse quadradinho que hoje amo, chamado Brasília. Como muitos, o que me trouxe ao Planalto Central foi a aprovação em um concurso público, para o órgão onde trabalho desde 2009. Meu primeiro ano em Brasília foi muito difícil, longe da família e dos amigos. Eu praticamente cheguei aqui com a roupa do corpo, uma pequena mala e muitos sonhos. Passei por um período de depressão que quase me custou a permanência na cidade. Escrever ressurgiu como uma tentativa de não perder o controle sobre a minha vida.
          Até que, no trabalho, eu conheci a Geisa Gonzaga, uma poeta e grande amiga que tinha (e tem) por mim um carinho maternal e me incentivou a escrever, quando soube que eu amava Poesia e escrevia poemas anos antes de chegar aqui. Daí em diante, eu comecei a passar para o papel, de forma figurada, todos os meus anseios, medos, sonhos, as minhas histórias de amor, desilusão, abandono, saudade, nostalgia, e enviava para a Geisa cada poema recém-escrito. Ela os lia com entusiasmo e me incentivava a escrever mais e mais, dizendo que ainda me veria publicar o meu primeiro livro.
          Em 2014, a “profecia” de Geisa Gonzaga se concretizou e eu publiquei o meu primeiro livro, “Olhar de andorinha”, de forma independente, pela editora Scortecci. E eu não preciso explicar por que a Geisa é a minha madrinha literária. No início do livro há uma carta dela, em que me “apresenta” aos leitores. É um dos maiores presentes que já recebi de alguém em toda a minha vida.

Ponto | A Ana teve o prazer de ler o ‘Cantigas de ninar dragões’ completo, e eu li vários poemas dele, uma coisa que não sentimos foi sono com as suas cantigas, mas sim uma força e um sentimento impar nos seus versos. Conta para a gente um pouco de como é a sua inspiração.

Rogério Bernardes | “Cantigas de ninar dragões” é o meu segundo livro, publicado no ano passado, após três anos da publicação de “Olhar de andorinha”. Creio que ele foi a evolução natural da minha Poesia, porque há traços em comum entre os dois livros, embora eu perceba um amadurecimento do que escrevo.
          Nos dois livros, e também em todos os poemas que escrevi após a sua publicação, creio que a inspiração se dá de uma forma muito semelhante: intuição e necessidade. Intuição, porque eu percebo à minha volta elementos que me fazem querer escrever imediatamente, sob o risco de eu perder o momento. Às vezes uma única frase vem à mente e não sai mais da cabeça enquanto eu não a ponho no papel e convido outras palavras e frases para “visitá-la”. E necessidade, porque se eu não dou vazão àquela sensação de urgência, eu me sinto vazio e ao mesmo tempo traindo a inspiração que veio e eu não aproveitei.
          Todos os meus poemas, sem exceção, são escritos em poucos minutos. O que mais demorou a ser escrito levou pouco mais de meia hora para sair da minha cabeça e ganhar vida. Em compensação, após escrever meus poemas, eu sou incapaz de me lembrar deles na totalidade, e por isso eu nunca conseguirei declamar um poema meu sem ter o texto em mãos. É como se eu me “esvaziasse” por inteiro após escrever. A Poesia sai de mim integralmente, como um parto rápido, às vezes com dor, mas, como eu imagino que aconteça na maternidade, o prazer do “nascimento” é maior que qualquer dificuldade durante o “parto”.
          Eu costumo dizer que o meu processo criativo não deve ser muito diferente do que ocorre com uma psicografia. Parece, muitas vezes, que há uma mão invisível guiando a minha para o poema surgir. Mas eu sei que ele vem de mim mesmo. É a necessidade de que eu falei anteriormente. Uma necessidade de não deixar mais nada passar em branco. Para o bem ou para o mal. Rs.

Ponto | Eu sou muito feliz por te convidado para se apresentar em um sarau no ano passado, e que foi a sua primeira vez recitando. O que me deixou muito marcado foi quando você disse que muitas vezes não precisamos matar nossos dragões internos, mas sim coloca-los para dormir. Como foi esse processo de perceber que a escrita poderia te ajudar a adormecer esses dragões?

Rogério Bernardes | Escrever Poesia é a minha melhor terapia. Alguns poemas de “Olhar de andorinha” foram escritos num momento de grande tensão emocional. Havia muitas coisas acontecendo em minha vida na época, e eu passava tudo para o papel, embora eu não considere o livro biográfico. Os meus dilemas são os mesmos da maioria das pessoas, e por isso eu acredito que os meus poemas são universais em seus temas. Muitos poemas sobre amor, paixão, desilusão, sobre reaprender a amar (especialmente a si mesmo) vieram dessa época.
          Eu também tenho uma relação muito íntima com o meu passado, especialmente a infância e a adolescência, e isso reflete sobremaneira nos poemas que escrevo sobre crianças, por exemplo. Eu não revivo o meu passado. Sou uma pessoa a pensar sempre no hoje, de viver o dia como se não houvesse amanhã, mas o passado faz parte da minha história e eu nunca o renego. Sou grato a tudo que vivi, especialmente aos momentos ruins, porque eles, mais do que tudo, fizeram de mim quem eu sou hoje.
          Os “dragões” que dão título ao segundo livro são todos esses momentos, passados e presentes, que nos desafiam a sermos melhores, a vivermos o desafio de sorrir mesmo quando o mundo nos quer ver chorando. E eu descobri, nos 42 anos de existência neste plano, que o que não nos mata nos fortalece. É o clichê mais verdadeiro que eu já conheci. Os “dragões” nos tornam pessoas mais fortes, mais empáticas com o próximo, mais cientes de que somos parte deste mundo, por mais que ele nos decepcione. Quando eu descobri que não adianta lutar contra eles, mas sim domá-los, fazê-los se comportarem como animais de estimação (talvez como meus dois gatos, que eu amo), o título do segundo livro veio imediatamente. Escrevi um poema chamado “Cantiga de ninar dragões” (com a palavra cantiga no singular), mas me dei conta de que todos os outros poemas escritos sempre tiveram o mesmo objetivo: acalmar os meus dragões, “niná-los”. Daí, o título no plural, “Cantigas…”.
          Escrever, hoje, é mandatório em minha vida. Quando já sinto o primeiro bater de asas do meu dragão interno, lá estou eu escrevendo. E provavelmente mais um poema ganha vida. Não necessariamente para ser publicado em um próximo livro, mas certamente para me mostrar que estou vivo.

Ponto | Numa das muitas conversas que já tivemos, sempre caímos no assunto de como o brasileiro no geral lê pouca poesia. Compartilha com a gente a sua visão de poeta e como poderíamos mudar esse cenário.

Rogério Bernardes |  O brasileiro, na verdade, lê muito pouco, não apenas Poesia. As estatísticas nos jogam isso na cara todos os dias. No entanto, o gênero que eu escrevo é o mais desvalorizado de todos, a meu ver. Já passei por diversas situações em que alguém diz a outra pessoa que eu sou escritor, que tenho livros publicados. Surge um primeiro entusiasmo da pessoa, que diz: “Nossa! Que legal! O que você escreve?”. Quando eu digo que sou poeta, a reação geralmente é: “Ah, tá! Bacana!” e um desinteresse em continuar a conversa sobre o assunto, porque para essas pessoas Poesia é literatura menor, na verdade. É como se fosse muito mais fácil escrever Poesia do que um romance, por exemplo. Afinal de contas, “qualquer um pode rimar” (sic).
          Eu tenho uma teoria sobre isso: as pessoas estão acostumadas a ver (não necessariamente ler) dois tipos de poemas: os “mamão-com-açúcar”, que costumam rimar amor com flor, ou paixão com coração, e os que mais parecem enigmas para uma caça ao tesouro, de tão difíceis. Ambos, penso eu, fazem com que o leitor brasileiro torça o nariz para a Poesia. Um pela obviedade e outro pela dificuldade. Ou pensam que o poeta é um romântico meloso e patético ou que ele é um arrogante que só quer “causar” com palavras e construções sem nenhum sentido aparente. Existem esses dois perfis, é claro! Mas Poesia é muito mais que isso, e a minha luta é para provar que há uma terceira via, a do texto poético palatável ao mesmo tempo que pode ser profundo e causar emoção, como toda boa Literatura almeja.
          Meus maiores exemplos e inspirações são, por isso mesmo, poetas como Cora Coralina e Mario Quintana. Sou apaixonado pelos textos deles, porque aliam a simplicidade da linguagem com uma profundidade que emociona. Choro lendo poemas da Cora, principalmente. Se isso não for o poder avassalador da Literatura, não sei o que é então.
          Um de meus sonhos, não só como poeta, mas como brasileiro, é ver a Poesia voltar a ser valorizada nas escolas, nas livrarias, nas casas. E o maior passo para isso está em algo óbvio para mim: educação. As aulas de Literatura devem ser mais valorizadas como parte da formação humanística das pessoas, como uma ferramenta de transformação para ver o mundo com outros olhos. E a Poesia, nesse aspecto, é fundamental, porque ela é capaz de nos fazer ver o mundo sob outros olhares, menos óbvios. Não é apenas uma questão de rimar amor com flor, mas de trazer ao mundo todos os sentimentos que existem, do amor romântico ao asco pelas injustiças, das rimas que mais parecem música aos versos livres que são um verdadeiro soco no estômago quando nos deparamos com a realidade crua do mundo. Estimular a produção poética nas escolas e a leitura de mais poetas (especialmente os contemporâneos) faria das crianças e adolescentes pessoas mais criativas, mais conscientes do mundo à sua volta e mais capazes de pensar “fora da casinha”. Em tempos de ódio e intolerância como este que estamos vivendo nas relações sociais, a Poesia, a meu ver, nunca foi tão necessária.

Ponto | O seu primeiro livro de poesias, Olhar de andorinha, foi independente e o segundo, Cantigas de ninar dragões, foi publicado pela Penalux. Quais foram as maiores diferenças entre os dois modelos de publicação.

Rogério Bernardes | Meu primeiro livro, “Olhar de andorinha” foi fruto de um desejo enorme de realizar meu maior sonho, que era publicar minha Poesia. Quando a Geisa Gonzaga me estimulou com palavras animadoras sobre a minha poética, eu criei coragem e fui à luta para publicar. No entanto, por eu ser completamente desconhecido, eu não acreditava que fosse capaz de ter uma editora interessada em me publicar, que lesse os meus poemas e dissesse: “este cara é bom, tem futuro. Vamos publicá-lo”. Então, fui para a autopublicação. Encontrei a Scortecci, que é uma editora que publica nesse método, mas com todo o tratamento editorial que um escritor gostaria, com ISBN, ficha catalográfica, tratamento profissional para a capa e a diagramação, etc. A grande diferença é que eu, desde o início, paguei por cada exemplar publicado. Escolhi uma determinada quantidade de exemplares, a editora fez um orçamento e após o pagamento eu recebi os livros para fazer deles o que quisesse. Os livros eram meus desde o início, porque eu havia pagado por eles.
          “Cantigas de ninar dragões”  já teve outro caminho. Uma vez que eu já havia realizado o sonho de publicar um livro, eu quis testar a qualidade da minha escrita. Então, escolhi duas editoras independentes que publicam Poesia de qualidade, das quais eu sou leitor e admiro, para enviar o original do segundo livro. Felizmente, recebi resposta positiva de uma delas, a Penalux, e começamos então o processo de publicação. Dessa vez, a dinâmica foi um pouco diferente, porque a editora publica uma pequena quantidade de exemplares e envia para o autor fazer o lançamento e vender. Após esse período, o autor paga à editora o valor que lhe é devido (porque obviamente nenhuma editora publicará livros sem ganhar dinheiro para ao menos manter a sua atividade) e fica com os direitos autorais. Essa parte dos direitos autorais eu já adianto que não vai “animar” ninguém a virar escritor, porque é da ordem de 10% por exemplar vendido. E eu sou categórico: vender livros no Brasil, a menos que você seja um youtuber descolado e famoso ou um escritor consagrado e disputado por grandes editoras, é profissão de fé. Se for Poesia, então, nem se fala!
          Ao menos, com uma editora respeitada no meio editorial, ainda que pequena e independente, especialmente no gênero que eu escrevo, as chances de ser lido por quem gosta de Poesia são um pouquinho maiores. Eu digo um pouquinho, no diminutivo mesmo, porque vender Poesia é difícil. Não faltarão pessoas que leem um poema ou outro seu, publicado no Facebook, por exemplo, mas ter um leitor que se interesse pelo livro, queira comprá-lo e dividir com outras pessoas o que achou da publicação é o que de mais raro ocorre. Como desabafo, eu digo que o que não faltam são pessoas que acham que podem ganhar um livro seu de presente, como se o ato de um dia, quem sabe, ele ler o seu livro seja um grande favor. Então eu digo: se for publicar um livro, faça-o, primeiramente, como um sonho seu, uma satisfação a ser alcançada. Não almeje sucesso comercial, porque ser escritor no Brasil, com algumas exceções, e especialmente se for Poesia o seu modo de expressão literária, é um ato de coragem e, por que não dizer, de teimosia e resiliência.

Ponto | Muito obrigado por ter participado do ciclo de entrevistas do Ponto Paralelo. Aqui neste espaço senta-se a vontade para passar o recado que você acha importante para os nossos leitores.

Rogério Bernardes | Muito obrigado por este espaço tão bonito quanto necessário que você abriu para autores como eu. A Literatura, especialmente a do DF, merece e agradece! Eu queria deixar a todos os leitores a mensagem de que a Literatura contemporânea do Brasil tem pessoas muito talentosas, e não são apenas os que estão com seus livros em destaque nas prateleiras das grandes livrarias. Há todo um mundo a ser descoberto, de autores independentes, desconhecidos, que têm muito a dizer, com histórias poderosas, personagens muito bem trabalhados, Poesia de grande qualidade. Eu poderia citar vários, não só Brasil afora, mas especialmente do DF. Deem uma chance a esses autores e descubra que há Literatura de qualidade muito além do que o mercado mostra. Procure as editoras independentes, os autores que publicam por conta própria e descubra um mundo de possibilidades. Pode ser que um de nós um dia chegue ao grande leitor, por meio de editoras grandes e com boa estrutura de marketing, mas não esperem isso acontecer para valorizar o que de melhor os nossos autores têm a mostrar. Quanto ao gênero que escrevo, eu sempre digo a seguinte frase, que é verso de um poema meu, publicado no primeiro livro: “A Poesia ainda insiste!”
Tenha um ótimo ponto para ler!

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