Ponto Paralelo | Manu Montenegro

Olá, meu bom leitor.

Hoje o Ponto Paralelo é com o poeta Manu Montenegro, que teve um lançamento gemelar no último sábado. Olha que massa, temos um poeta recém lançado aqui conosco, caso queiram os livros dele, que são artesanais, é só entrar em contato através do Instagram @identidadesecretapoeta 😉

Ponto | Eu tive o prazer de te conhecer em um curso sobre periódicos literários, e agora com essa oportunidade da entrevista posso perguntar sem peso na consciência. Quem é o Manu Montenegro, o que os leitores do Ponto (e eu) precisam saber sobre você?

Manu | Bom, Paulo. Nasci em 1979 e fui criado aqui em Brasília, mas minha família veio de vários lugares: Pernambuco, Rio Grande do Sul, Acre e Bolívia. Cresci jogando bola embaixo do bloco, no Plano Piloto, numa época em que parecia tudo um grande condomínio com cercas invisíveis. Sonhava ser o novo Zico, mas acabei graduado em jornalismo, estou formando em Letras (Português) e, se me aprovarem, serei no próximo semestre mestrando em Educação. A poesia, no entanto, não faz parte do meu dia a dia como jornalista. Escrever (e, agora, publicar) poesia representa uma guinada na minha vida. Depois de um ano e meio de psicanálise, decidir levar a sério essa paixão que eu negligenciava desde adolescente. A poesia apareceu na minha vida aos 14 anos, como uma espécie de terapia para me ajudar a superar as primeiras desilusões amorosas. Minha maior influência foi minha avó, Martha Montenegro, que sempre me incentivava a ler poesia e, principalmente, a escrever – ela também escrevia. O que eu escrevo carrega toda essa herança, para o bem ou para o mal, consciente ou inconscientemente. Podia também dizer só que sou filho da minha mãe, Tia Regina, ela ia adorar. Mas agora vocês já sabem da história toda.

https://www.fnac.com.br/en-esta-casa-vivia–antologia-poetica/p

Ponto | Nosso último contato foi justamente no seu lançamento duplo, e eu já dei uma lida nas suas poesias, cara que loucura hein, são muito boas. Me fala um pouco da sua inspiração.

Manu | Muito obrigado! Fico muito feliz que você tenha curtido os poemas do “Boemia Suicida” e do “Corda Bamba”. Quando era criança, ouvia Michael Jackson, como toda a molecada da minha geração. Mais tarde acabaria descobrindo o rock, o rap, o samba, a bossa nova e outros gêneros da música brasileira. Hoje vejo como a métrica das canções influenciou meu jeito de escolher palavras, rimas e ritmo ao escrever minhas poesias. A inspiração vem de algum lugar mágico que a gente desconhece, mas eu já percebi que ela vem quando eu estou mais distraído. Alguém fala ou eu leio alguma coisa na rua, no trabalho, na televisão que me impacta por algum motivo: soar diferente, interessante, original, musical. Anoto no papel para não perder a ideia – sempre que possível, na hora (sou mestre em perder ideias geniais!). Essa é a parte da inspiração. Daí em diante, é só trabalho, transpiração.

Ponto | Falando ainda sobre o seu lançamento recente, você optou por produzir os seus livros com a editora artesanal Avá, e eu fiquei sabendo que o pessoal da editora põe o autor para costurar os livros, como foi essa experiência de além de escrever também produzi-los.

Manu | Conheci a poeta Natália Cristina ano passado, numa oficina de escrita literária e costura de livros que ela ofereceu com o também poeta Geovane Alburquerque no Mercado Sul (em Taguatinga). Foi muito encantador ver que era possível publicar minhas poesias por conta própria, sem editora, sem marketing, sem distribuição, sem livraria, etc. Todos os 320 exemplares que imprimi foram costurados (miolo e capa) à mão, como o artesanato das bordadeiras do interior da Paraíba, dos hippies da Feira da Torre, como o fruto do trabalho de quem é artesão. Nós juntamos um grupo de amigos lá em casa e passamos o dia a costurar, sob a supervisão da Natália, que domina todo o processo. A Natália Cristina sempre enfatiza que a ideia de costurar livro é reconectar mão, mente e coração quando a gente costura livros. Eu digo que é uma atividade que exige muita atenção e te tira do passado (frustrações) e do futuro (expectativas). Te traz de volta ao presente. Foi um feriado incrivelmente gostoso. Dá vontade de fazer livro todo final de semana agora!

Ponto | Eu sempre vejo você como um cara super alto astral e de bem com a vida, e vi poemas seus nessa pegada como também poemas mais, digamos mais densos, como o ‘Acabou o amor’ do livro Boemia Suicida. Como um cara tão de boa consegue ter uma visão tão ao longe como o desse poema?

Manu | Esses poemas foram escritos há muito tempo, a maioria entre 2003 e 2010. Eu era mais melancólico e introspectivo, acho. A poesia sempre foi minha confidente nas horas de dificuldade. Diante da poesia, não cabem máscaras, desculpas. Mergulhar nos sentimentos e nas emoções com seriedade é um compromisso do artista. Não sou eu que digo isso. Quem me disse exatamente isso foi o Chico César, quando o entrevistamos para o projeto de conclusão do curso de jornalismo em 2005.

Acabou o Amor

Não me dão bebida, eu fico nervoso.
Acabou a grana, maldito sistema!
Fugi lá de casa, mas não tem problema
Durmo como mijo e cago, aqui e ali.

Vivo sem família, tenho mais coragem.
Na selva da pedra, abraço capetas.
No porão da rua, só vejo miragem.
Vem vindo o amanhã, vela preta e caixão.

Acabou o amor.
Isso aqui vai virar o INFERNO.

Ponto | Pelo o que conversamos, estes são os seus primeiros livros. Me diz ai qual é a visão de um poeta novo dentro desse mercado tão louco. (Se não for pode chutar o balde e expor o amadorismo desse entrevistador sem medo e falar mesmo assim do mercado XD)

Manu | Como eu sou um novato no mercado, vou repetir o que me dizem pessoas mais experientes, como a (multiartista) Cristiane Sobral. É possível viver de poesia, sim. Com dedicação, racionalidade, planejamento, resiliência, paixão, é possível. Essa é a visão de quem produz literatura hoje. Minha visão de consumidor, por outro lado, é a de quem consumia no mercado convencional. Esse mercado não vai ser o mesmo, está acabando literalmente. Grandes editoras estão fechando ou fecharam (Cosac & Naify foi de partir o coração!), livrarias estão se fundindo para fugir à escassez de recursos e vendas. Creio que em parte, deve-se o fenômeno à má gestão, a uma abordagem equivocada do leitor, que só é tratado bem quando parecer ter algo que interessa à livraria, ou seja, dinheiro no bolso. Essa relação é deprimente, o consumidor não é convidado a frequentar uma livraria, só em caso de lançamentos de livros, um tipo de evento que as livrarias cobram caro do autor ou da editora. Parece político em relação ao eleitor pobre – só aparece em ano de eleição, e olhe lá!

Ponto | Muito obrigado por ter participado desse ciclo de entrevistas do Ponto Paralelo. Para nos despedirmos, indica um poema seu para o pessoal conhecer mais seu trabalho, e já aproveita e usa esse espaço para deixar aquele recado que você acha importante.

POR FALTA DE PELE TUA

Pra não te dar por perdida,
digo então
que tua pele está em falta
e sigo em frente.

Aperto o passo diante da mercearia
pechincho inteira minha feira
com miúdos me alimento.

Passo os dias vendo a vida passar
feito vassoura e varredor.

Fiel e instatisfeito, sigo minha receita
e não passo mais na tua rua
nem antes
nem depois.

Manu Montenegro

Meus recados:
#compredopequeno
#compredequemfaz

Parafraseando Chico Science, “há um poeta dentro de você / governe-o / faça-o falar.”

Tenha um ótimo ponto para ler!

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