Ponto de Referência | Rubem Braga

Oi pessoal!

Semana nova é sinônimo de região nova aqui no Julho Brasileiro! E chegamos a região sudeste, acho que de todas é a que possui mais exemplos de escritores recentes e consagrados que ganharam o grande público. Como estamos tentando pegar representantes de todos os tipos de textos (Já passou por aqui uma romancista e dois poetas) então estava faltando um cronista, por isso escolhemos: Rubem Braga.

O escritor nasceu, em 1913, em Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo, e você deve se lembrar que essa é a cidade do Rei (não consigo mais usar esse título sem lembrar do Marco Severo) Roberto Carlos, os dois são conterrâneos e a cidade e orgulha muito de ambos. Seu ofício principal era o jornalismo, que o abraçou desde os 15 anos ainda na cidade natal, pois seu pai era dono de um jornal.

Iniciou seus estudos por lá, mas mudou-se para Niterói para concluir o ensino. Suas primeiras crônicas foram escritas aos 19 anos para o jornal do pai quando já estava no Rio e a partir dali encontrou sua vocação. Fez faculdade de Direito, mas nunca exerceu a profissão até porque no ano em que se formou fez a cobertura da Revolução Constitucionalista de 32 para um jornal de Belo Horizonte o que lhe afastou de vez do mundo das leis.

Ainda no mundo jornalístico ele fez várias coberturas interessantes, mas a mais curiosa aconteceu em 1944, quando foi acompanhar a participação da Força Expedicionária Brasileira na II Guerra Mundial. Rubem publicou seu primeiro livro entre esses dois períodos marcantes, em 1936, O conde e o passarinho era inteiramente de crônicas, como todas as suas obras, mas a maior parte de seus textos foram publicados em antologias porque, como ele dizia, ele nasceu para ser publicado no dia seguinte.

Foi considerado o melhor cronista brasileiro do século XX, colocado ao lado de Machado de Assis, mas não largava sua vida jornalística. Na década de 60 foi embaixador do Brasil em Marrocos por dois anos. No total, dedicou 62 anos de sua vida ao jornalismo e escreveu mais de 15 mil crônicas. Faleceu em dezembro de 1990.

Escolhi para dividir com você uma crônica do livro Ai de ti Copacabana, publicado em 1960, mas que ainda é bastante atual:

Levanto cedo, faço minhas abluções, ponho a chaleira no fogo para fazer café e abro a porta do apartamento — mas não encontro o pão costumeiro. No mesmo instante me lembro de ter lido alguma coisa nos jornais da véspera sobre a “greve do pão dormido”. De resto não é bem uma greve, é um lock-out, greve dos patrões, que suspenderam o trabalho noturno; acham que obrigando o povo a tomar seu café da manhã com pão dormido conseguirão não sei bem o que do governo.
Está bem. Tomo o meu café com pão dormido, que não é tão ruim assim. E enquanto tomo café vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente. Quando vinha deixar o pão à porta do apartamento ele apertava a campainha, mas, para não incomodar os moradores, avisava gritando:

— Não é ninguém, é o padeiro!

Interroguei-o uma vez: como tivera a ideia de gritar aquilo?

“Então você não é ninguém?”

Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de ouvido. Muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: “não é ninguém, não, senhora, é o padeiro”. Assim ficara sabendo que não era ninguém…
Ele me contou isso sem mágoa nenhuma, e se despediu ainda sorrindo. Eu não quis detê-lo para explicar que estava falando com um colega, ainda que menos importante. Naquele tempo eu também, como os padeiros, fazia o trabalho noturno. Era pela madrugada que deixava a redação de jornal, quase sempre depois de uma passagem pela oficina — e muitas vezes saía já levando na mão um dos primeiros exemplares rodados, o jornal ainda quentinho da máquina, como pão saído do forno.
Ah, eu era rapaz, eu era rapaz naquele tempo! E às vezes me julgava importante porque no jornal que levava para casa, além de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia uma crônica ou artigo com o meu nome. O jornal e o pão estariam bem cedinho na porta de cada lar; e dentro do meu coração eu recebi a lição de humildade daquele homem entre todos útil e entre todos alegre; “não é ninguém, é o padeiro!”
E assobiava pelas escadas.

Rio, maio, 1956.

O padeiro

Até a próxima!

Ana.

Você irá gostar de ler também:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *