Ponto de Referência | Carlos Heitor Cony

Desde abril do ano passado não escrevemos um Ponto de Referência então achamos que prestar uma homenagem ao escritor Carlos Heitor Cony, que faleceu na última sexta-feira, seria uma boa forma de retomar a coluna. Estão prontos para conhecer um pouco mais sobre um dos maiores escritores brasileiros da atualidade?

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Carlos Heitor Cony era carioca e nasceu em 1926. Na adolescência entrou para o seminário, mas abandonou os estudos em 1945. Exerceu a profissão de jornalista a partir de 1954 e foi no Correio da Manhã que apoiou a queda de João Goulart em 1964, fato do qual se arrependeu e, por isso, se tornou opositor ao golpe escrevendo artigos contra a ditadura que o levaram a prisão por seis vezes. O jornalismo o incentivou a escrever ficção e seu primeiro romance, O Ventre, foi publicado em 1958, mas ele não parou por aí e também se aventurou pelo mundo das Crônicas, dos Contos e das biografias.

Ele teve uma amizade forte com Juscelino Kubitschek e escreveu sua biografia. Também escreveu várias adaptações a partir da década de 70 entre as quais se destacam: Crime e Castigo (Dostoiévski), Viagem ao Centro da Terra (Júlio Verne) e Moby Dick (Hermann Melville). Pilatos foi o seu romance mais famoso e é considerado sua obra-prima, foi publicado em 1973 e a partir desse texto ele informou que não escreveria mais. Ele cumpriu sua promessa por 22 anos quando publicou Quase Memória, um livro que traz um narrador personagem que fica intrigado ao receber um embrulho do pai falecido dez anos antes. O livro é considerado um romance, mas mistura ficção e realidade, o próprio autor diz que é impossível detectar o que é verdade e o que não é.

Entre 1995 e 2007 ele descumpriu completamente sua promessa e escreveu mais 9 romances (que lhe renderam três Jabutis), 1 conto e diversas crônicas. Sua produção é extensa e vai além da literatura. Cony também se enredou pelo mundo do cinema e das telenovelas, era um profissional muito versátil. Atualmente ele era colunista da Folha de São Paulo e seu último texto foi publicado em 31 de dezembro, quando já estava internado. Para nós, ele é imortal. Ocupava a cadeira nº 3 da Academia Brasileira de Letras, posição para a qual foi eleito no ano 2000. Alguns amigos jornalistas já ocupavam outras cadeiras e sempre que abria uma vaga o incentivavam a se candidatar, ele só cedeu depois de algum tempo.

Curiosidade: Uma cadeira da ABL só fica vaga após o falecimento de seu ocupante, a vacância é declarada pelo presidente em uma sessão solene chamada Sessão da Saudade. Os interessados tem um mês para declarar intenção de ocupar a cadeira. Três meses depois da sessão da saudade é realizada a eleição para escolha do novo membro, que poderá sugerir datas para a posse.

Pelo instagram do blog (@pontoparaler segue lá!) fizemos uma pequena homenagem ao escritor e iniciei a leitura de Quase Memória, o livro que o tirou da reclusão. Salvei os stories como destaque e estou atualizando o andamento da leitura de vez em quando. Se você quiser me acompanhar na leitura é só comentar por aqui ou lá no instagram, assim que terminar escrevo a crítica contando os detalhes desse meu primeiro contato com Carlos Heitor Cony. Fiquei meio tocada com a morte dele porque o livro de setembro da TAG – Experiências Literárias foi esse que comecei a ler agora. Eu já conhecia parte de sua história, mas nunca tinha tido a oportunidade de ler um de seus livros. Então esse foi o jeito que encontramos de homenagear um escritor tão importante para a literatura nacional.

Para finalizar, um trechinho de sua última coluna na Folha de São Paulo:

“(…) Na escola te corromperam. Disseram que Papai Noel era eu —e eu nem posso repelir a infâmia e o falso testemunho. De qualquer forma, pediste um acordeão e uma caneta— e fomos juntos, de mãos dadas, escolher o acordeão.

O acordeão veio logo, e hoje, quando o encontrar na árvore, já vai saber o preço, o prazo de garantia, o fabricante. Não será o mágico brinquedo de outros Natais.

Quanto à caneta, também a compramos juntos. Escolheste a cor e o modelo, e abasteceste de tinta, para “já estar pronta” no dia de Natal. Sim, a caneta estava pronta. Arrumamos juntos os presentes em volta da árvore. Foste dormir, eu quedei sozinho e desesperado (…)”

Ana Paula

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