Plano Piloto – Parte Dois

Olá, meu bom leitor.

Mais uma quinta e mais um texto meu aqui no blog.

Espero que vocês estejam gostando da minha primeira aventura em um suspense policial. Eu particularmente estou achando um máximo escrever.

Sem mais delongas, ai está à segunda parte da historia.
Para quem não leu a primeira parte, ai segua o link:
Parte 1

Tenha um ótimo ponto para ler!

Plano Piloto – Parte Dois

– Como vocês podem ver, a arquitetura é uma das artes urbanas que dissemina a cultura tanto para o mais pobre quanto para o mais rico, de forma gratuita. A arquitetura nos ronda por todos os lados dentro de uma cidade, só a repara quem quer – disse o palestrante para o seu púbico de mais de quatrocentos espectadores – então a questão para vocês que são os novos arquitetos é que a população está cansada da arquitetura apenas funcional. Façam uma arquitetura que deslumbre quem a olhe e uma arquitetura funcional que agrade a todos que a utilizarão diariamente.

A luz verde que ficava em cima da tela de projeções se acendeu indicando que alguém na plateia estava querendo fazer uma pergunta.

– Opa sempre me assusta quando essa luz acende, nunca vou conseguir me acostumar com ela – disse o palestrante fazendo graça e conseguindo arrancar algumas risadas – então quem vai fazer a pergunta? – percorreu o olhar até achar o rapaz que se levantou indo em direção ao microfone no meio do corredor que divide os dois lances de cadeiras – ah sim, te achei então qual a pergunta, meu jovem rapaz?

– Bem, desculpe pelo susto professor – todos soltarão uma risada contida – meu nome é Lucas e sou aluno do quinto período de arquitetura e urbanismo, eu gostaria que o senhor exemplificasse como podemos fazer essa arquitetura artística e funcional que o senhor disse?

– Boa pergunta, meu jovem, ainda temos mais alguns minutos e acredito que posso responder isso – olhando para o relógio e voltando para o enorme telão branco – aqui a foto do Congresso Nacional, como você, Lucas, descreveria esse conjunto artisticamente?

– Bem professor, eu diria que artisticamente ele mantém o estilo moderno, em função das formas curvas das duas cúpulas em conjunto que se equilibram com as linhas retas das duas torres.

– Muito bem explicado. E como você me descreveria essa obra no ponto de vista funcional?

– Ora, tem as duas casas legislativas uma ao lado da outra, e os gabinetes estão em prédios diferentes, mas são interligados pelos anexos, estou certo professor?

– Está sim, de certa forma – disse o professor olhando para o rosto assustado do aluno, que se manteve inquieto a frente do microfone – você esqueceu de dizer que as formas das cúpulas são diferenciadas. A Câmara dos Deputados, a casa do povo, tem a cúpula voltada para cima, aberta a toda a população. O Senado Federal, a casa que representa o Estado, tem a cúpula voltada para baixo, se voltando para as decisões internas. Tem ainda as duas torres  que juntas formam a letra “H” que representa a maior característica de todo representante público, a humanidade, e a sua funcionalidade está em seus corredores que sempre chegam aos plenários e por mais longe que se esteja existem rampas para encurtar as distâncias. Então é uma arte que ultrapassa os limites da arte moderna e com um ideal de funcionalismo mais abrangente, para passar a mensagem de que mesmo longe você pode estar perto do destino, consegui exemplificar sua dúvida, Lucas?

– Sim, professor, muito bem por sinal, muito obrigado – voltando a seu assento.

– Muitos dizem que o Congresso Nacional representa uma mulher deitada de seios para cima, as cúpulas, com suas pernas levantadas, as torres, e seus anexos sendo os braços esticados. Um pensamento bastante imoral para um arquiteto – ninguém conseguiu conter os risos – é bastante imoral, mas temo que nosso horário prolongou-se demais essa manhã. Foi muito bom estar aqui na UnB palestrando para vocês, muito sucesso na carreira de vocês.

Após suas palavras foi ovacionado por uma salva de palmas. O Professor Antônio Carlos de Almeida Filho, um homem de 42 anos, nasceu no interior do Mato Grosso em uma comunidade totalmente agrária do pantanal. Desde cedo sempre tivera interesse em saber como conseguiam construir os enormes edifícios que via, quando criança, nas idas à capital para vender os produtos da lavoura. Este interesse o levou a cursar primeiramente arquitetura e urbanismo, logo em seguida fez uma especialização na Escola de Belas Artes de Munique. Ao voltar para o Brasil fez um pós-doutorado em construções de concreto armado e assim se firmou como um dos maiores arquitetos do Brasil. Sempre sendo convidado para palestrar nas diversas instituições de ensino superior do País.

Saindo do enorme anfiteatro da Universidade de Brasília não pode deixar de notar o sol estorricando os enormes gramados e estacionamentos que separam um bloco e outro da universidade. Olhou em seu relógio e viu que ainda eram aproximadamente onze e vinte da manhã. Nunca vou conseguir entender esses horários para palestras que esses coordenadores nos dispõem, pensou o professor, melhor ir logo para o carro antes que esse sol queime o meu juízo.

Antes que saísse da marquise do anfiteatro o professor foi abordado por dois militares.

– Com licença – disse um dos militares fazendo sinal com a mão para que o professor o esperasse – o senhor é o professor Antônio Carlos de Almeida Filho?

– Sim, sou eu – o que será que eles querem comigo, pensou o professor – em que posso ajudar os senhores?

– Bem professor, eu sou o Coronel Barroso e o meu companheiro é o Major Magno, somos assessores do Gabinete do Comandante do Exército, o General Albuquerque quer ter uma reunião com o senhor.

– Pois bem, mas posso saber o que o General Albuquerque quer comigo? – perguntou meio receoso, o que o Comandante do Exército quer comigo? O professor não conseguia ligar esse fato a ele.

– Senhor professor Antônio Carlos, o General Albuquerque apenas disse que o senhor está sendo convocado, e que precisa passar as instruções ao senhor – disse o Major Magno tentando colocar um ponto final naquela conversa.

– Desculpe-me pelo meu companheiro Professor Antônio Carlos, mesmo com o comportamento um pouco hostil, ele é um ótimo militar.

– Entendo, Coronel Barroso – agora o professor se lembrou de quando foi recruta há muitos anos. Pode ver as platinas mostrando as patentes colocadas sobre os ombros. Como os dois estavam usando o uniforme de passeio, sapato preto, calça verde-oliva, sinto verde com fivela dourada e a blusa bege, o professor pode reparar melhor nas patentes. O coronel, com suas três estrelas gemadas, e o major também com suas três estrelas sendo que apenas uma era gemada. Pode ver claramente a diferença entre os dois oficiais, o coronel, com o último posto de oficial superior, mais cuidadoso com suas palavras ao se dirigir a um civil. Já o major, o primeiro posto dos oficiais superiores, faltava a mesma maestria e experiência do coronel – os senhores não precisam se preocupar comigo eu irei sem nenhum problema, apenas peço que me chamem de Professor Carlos, estou mais habituado.

– Obrigado Professor Carlos, o senhor pode vir conosco, estamos com a viatura pronta – disse o Coronel apontando em direção ao estacionamento.

Os três foram andando em direção a um carro sedã preto com vidros fumê bastante escuros. Não sabia que podia se usar películas tão escuras assim, pensou o professor.

Entrando na Avenida do Exército o professor não pode deixar de notar os traços urbanísticos presentes ali. A Avenida do Exército com um total de seis faixas foi feita propositalmente para o pouso de aviões em situações extraordinárias. Localizada bem no meio da enorme avenida encontrava-se a Praça dos Cristais, uma praça enorme em forma de triângulo equilátero com duzentos metros para cada lado. A praça totalmente arborizada pelo paisagista Burle Max, apresentava uma natureza protuberante e contida na dosagem certa e no seu centro um espelho d’água que tinha enormes esculturas em forma de cristais, nas mais variadas posições.

Do lado oposto a praça encontra-se o conjunto arquitetônico que forma o Quartel General do Exército. Começando pelo enorme obelisco com seus sessenta metros de altura na frente do monumental palanque em forma de concha, para dissipar o som com maior facilidade. O palanque acabou sendo apelidado pelos militares de “Bainha da espada de Caxias”. Ao lado do palanque, o Teatro Pedro Calmon, que foi construído na forma de uma barraca de campanha estilizada, mostrando claramente as possibilidades de curvas e vãos que o concreto armado pode dar.

Atrás do palanque e do teatro o Quartel-general se mantém imponente, com seus dez blocos cada um com cento e cinquenta metros de comprimento, um atrás do outro. O primeiro bloco e os dois últimos têm quatro andares e os demais três, mas apenas o primeiro tinha uma estrutura erguida com pilastras arredondadas no terraço que ocupava um terço do espaço que formava o Salão Nobre do Exército.

O professor não sabia ao certo por onde iria entrar no primeiro bloco. Há uma porta que é usada para a entrada de autoridades, obviamente que não seria por ali que ele iria entrar. Existem dois estacionamentos posicionados ao lado dos blocos, mas é claro que eles não iriam parar ali, já que os estacionamentos eram usados pelos servidores. Então o professor ficou pensando por onde ele poderia entrar naquele monstro arquitetônico, foi ai que ele se surpreendeu, o carro pegou um caminho desconhecido pelo professor, indo em direção ao estacionamento sul e passando por uma entrada que vai direto para o subterrâneo do primeiro bloco.

Mesmo sendo um dos maiores nomes da arquitetura brasileira o Professor Carlos sempre quis saber como eram os projetos do complexo arquitetônico do Quartel-general, já que suas plantas foram consideradas confidenciais para maior segurança contra invasores ou qualquer tipo de ataque direto. Já no subterrâneo do bloco o professor pode ter uma pequena noção de como eram os desenhos do projeto, pelo que ele pode reparar o primeiro bloco mantém suas dimensões no subterrâneo, mas ali ele é totalmente usado como estacionamento. Pelo que o professor pode notar esse estacionamento é usado por Oficiais Generais, já que na frente de cada vaga tinha o nome de seus respectivos donos, como uma vaga que ele conseguiu ler “Ch SGEx” pela sua pouca vivencia no âmbito militar sabia o que aquela sigla dizia “Chefe da Secretaria Geral do Exército”, as paredes são totalmente revestidas por azulejos que formavam desenhos, uma espécie de folha estilizada metade azul metade verde, que davam a impressão de folhas de outono caindo, ele sabia exatamente quem desenhara aqueles azulejos, Athos Bulcão, impressionante até aqui o artista plástico da capital trouxe seu talento.

Após percorrer aproximadamente cento e quinze metros, o professor já imaginava todos os blocos da mesma forma, mas ao desembarcar do carro no final do enorme corredor havia duas portas, uma que dava a uma pequena sala de estar com duas portas de elevadores e a outra porta de vidro ao lado direito que ele não imaginava aonde poderia dar, indo em direção a pequena sala de estar ele passou de frente a porta de vidro e pode ver o que se escondia por de trás dela, mais uma vez se surpreendeu com a arquitetura daquele lugar, pelo vidro da porta ele pode ver um enorme vão bastante iluminado que dava lugar a outro estacionamento para aproximadamente uns duzentos carros, em uma das paredes pode notar uma serie de elevadores e escadas, em cima de cada elevador podia ler uma letra, “B”, “C” e assim até a letra “J”, impressionante na verdade todos os blocos não são separados como imaginava, e sim tudo é um enorme edifício totalmente interligado pelo subterrâneo.

– Professor Carlos – disse o Major Magno que reparou que o professor havia ficado de frente a porta de vidro olhando como em um transe para o enorme vão que se encontrava do outro lado – me desculpe, mas nós iremos por aqui – fazendo um gesto com a mão em direção a sala de estar.

– Sim claro – disse o professor se virando e voltando de seu devaneio – nunca imaginei a magnitude arquitetônica que se esconde aqui, me desculpe Major.

– Sempre é surpreendente aqui professor – disse o Coronel Barroso – muitos ate dizem que o QG tem tantos corredores secretos que alguns até foram esquecidos, pois foram levados ao tumulo com velhos generais, mas é uma pena que hoje não viemos para isso.

– Sim claro Coronel, hoje pelo que eu tenho visto, todos viemos a trabalho.

– Bem colocado Professor Carlos – disse o major – o nosso elevador já chegou.

Todos entraram no elevador e se dirigiram ao quarto andar.

Dentro do elevador o professor teve pouco tempo para poder refletir em tudo o que estava acontecendo com ele, após uma palestra habitual ele foi convocado por dois militares de altas patentes, que aparentemente foi convocado pelo general que comanda o exercito para alguma missão e receberia as instruções do próprio comandante, o que ele iria fazer ainda era algo obscuro para ele, mas a sua única razão de tudo aquilo era que qualquer coisa que fosse escutar dali para alguns minutos será uma surpresa, e isso o estava deixando desconfortável.

Assim que a porta do elevador se abriu o professor pode ver uma sala de recepção bem eventual, um enorme vão quadrado que vasa de uma parede a outra do enorme bloco que compõem o edifício, a porta que da entrada ao único corredor aparente é bloqueado por uma bancada que a sua frente esta escrito “Gabinete do Comandante do Exército”, atrás da bancada como um bom militar cumprindo sua missão de serviço recepcionando os visitantes um primeiro sargento, a parede do lado oposto a três bustos um do Marechal Deodoro da Fonseca a esquerda, ao centro o busto do Duque de Caxias e a direita o Busto do Marechal Castelo Branco, antes que o professor pudesse ler as frases alusivas para ver a relação para aqueles três bustos estarem ali ele foi chamado pelo Coronel Barroso que já havia identificado o professor ao sargento e liberando o aceso do professor ao corredor.

Quando o professor chegou de frente ao corredor pode notar que não era basicamente um corredor e sim um pequeno lance que da entrada a uma porta, antes que ele tivesse alguma reação do que fazer o coronel pegou em seu ombro e disse:

– Agora professor Carlos o senhor devera seguir sozinho, posso te dar um conselho?

– Sim Claro – qualquer conselho em uma hora dessas será mais do que bem vinda pensou o professor.

– Depois dessa porta o senhor estará dentro do gabinete do General Albuquerque, bem como eu posso dizer ao senhor, o General é um pouco conservador, não se ofenda com o que o General venha falar com você, ele é o ultimo general formado com os padrões da época da ditadura militar, acredito que não tenho mais a dizer.

– Acredito que o senhor falou tudo Coronel – ótimo tudo o que eu precisava era do ultimo general da linha grossa do exército, pensou o professor Carlos.

O Professor Carlos deu os únicos três passos que se dava para fazer até chegar à porta, olhou para trás e viu que o sargento já havia acabado de pousar o telefone e balançando a cabeça de maneira positivamente, era o sinal de que já tinha informado o General de que o professor já se encontrava em frente à porta, antes que ele pudesse retornar o olhar para a porta pode ouvir o barulho da trinca girando e fazendo um estralo para a porta se abrir.

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