O que é Romance de Formação?

O termo Romance de Formação (ou  de Educação), Bildungsroman em alemão, foi utilizado pela primeira vez na Alemanha pelo professor Karl Morgenstern, em 1803, e serviu justamente para delimitar os romances cujo conteúdo representam a formação do protagonista como pessoa. Revelam detalhes de como as pessoas e o ambiente podem agir sobre a formação interior do personagem.

A maioria dos romances traz um personagem pronto que se desloca pelo espaço, os acontecimentos do enredo alteram o destino ou a posição social, por exemplo, mas o protagonista continua igual em sua essência. Já o romance de formação traz a narração de fatos que mostram como o personagem evoluiu através do tempo, como os acontecimentos, as pessoas e os ambientes o moldaram com o passar do tempo.

Esse termo foi criado por Morgenstern após a publicação do livro Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, de Goethe, mas esse não foi o primeiro romance desse tipo na história. Antes de entrar em outros títulos que se encaixam nesse formato vale ressaltar que dentro da própria Literatura não há consenso quanto a abrangência dos romances de formação. Há estudiosos mais restritivos que incluem nesse gênero apenas os enredos que abordam unicamente o processo de educação do personagem. Já outros exigem somente a presença do elemento de desenvolvimento, de formação do personagem, o que acaba incluindo mais textos. Vamos aos exemplos:

  1. David Copperfiel (Charles Dickens);
  2. Infância, adolescência e juventude (Tolstói);
  3. Os Buddenbrook (Thomas Mann);
  4. A montanha mágica (Thomas Mann);
  5. O apanhador no campo de centeio (J. D. Sallinger);
  6. Vida e proezas de Aléxis Zorbás (Nikos Kazantizákis);
  7. O Vermelho e o Negro (Stendhal);
  8. Orgulho e Preconceito (Jane Austen);
  9. Tetralogia Napolitana (Elena Ferrante).

As características do romance de formação variam ao longo do tempo e dos países, na Inglaterra e na Alemanha do século XIX encontramos o princípio de classificação, ou seja, as transformações narrativas levam sempre a um final particular e determinado colocando a felicidade como o valor mais alto a ser alcançado. Já os romances franceses e russos são regidos pelo princípio de transformação, onde o que é mais importante é a narrativa e não o final, que deve ser um processo aberto. Nesses países há o entendimento de que é preciso rechaçar doutrinas e padrões previamente definidos e justamente por isso os finais são pouco significativos apresentando-se de forma inesperada, em muitos casos.

No Brasil, há o entendimento de que o livro O Ateneu (1888), de Raúl Pompeia, funda o movimento dos romances de formação justamente em um momento de transformações na sociedade brasileira. Daí para frente, vieram vários outros títulos de formação:

  1. Memórias sentimentais de João Miramar (Oswald de Andrade);
  2. Perto do Coração Selvagem (Clarice Lispector);
  3. As três marias (Rachel de Queiroz);
  4. Infância (Graciliano Ramos);
  5. Angústia (Graciliano Ramos);
  6. O moleque Ricardo (José Lins do Rego);
  7. Jubiabá (Jorge Amado).

Resumindo, o romance de formação é aquele que visita parte da vida do protagonista apresentando ao leitor como os acontecimentos, as pessoas e o ambiente moldam o caráter do personagem. Foi na Alemanha que esse conceito foi criado, mas o primeiro texto classificado como de formação foi escrito na Antiguidade. Não há um entendimento único quanto as características desse tipo de romance. No Brasil, o primeiro texto identificado como de formação surgiu em 1888, mas foi na década de 1930 que o estilo se difundiu mais.

Do final do ano passado para cá li dois romances de formação e achei que devia compartilhar esse conhecimento com vocês. Os títulos de livros que estão sublinhados estão com os links das críticas que já publicamos por aqui, caso você se interesse por conhecer um pouco mais sobre o livro. Em breve, sairá mais uma crítica de romance de formação e é de um texto mais atual. Vale ressaltar que a leitura de um romance de formação é um pouco diferente porque não há, na maioria das vezes, acontecimentos grandiosos e nem reviravoltas incríveis. A narrativa é mais linear e toda a carga crítica fica por conta da descrição do ambiente e da sociedade em que o personagem está inserido, então é preciso mais atenção a esses pontos durante a leitura para conseguir entender o que o autor está querendo passar com a história.

Fontes:

http://www.letras.ufrj.br/posverna/doutorado/IllanesAMDRLP.pdf

https://www.caminhosdoromance.iel.unicamp.br%2Festudos%2Fabralic%2Fromance_formacao.doc

Até a próxima!

Ana Paula

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5 Comentários

  1. Excelente sua explicação sobre romance de formação, inclusive por conter lista de livros que nos servirão para observar como é ler uma obra sabendo deste detalhe de conhecimento literário. Parabéns!

    1. Obrigada, Márcia!
      Foi uma dificuldade que eu tive quando comecei a ler livros desse tipo, então pensei em compartilhar para ajudar a disseminar o conhecimento!

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