Monteiro Lobato, um autor controverso [BEDA #18]

Hoje é dia do livro infantil e, não por coincidência, aniversário de Monteiro Lobato, escritor que deu vida ao Sítio do Pica Pau Amarelo. Já fizemos um post passeando por várias obras dele no ano passado, mas ele se perdeu junto com todos os posts de 2016. Por isso resolvemos falar novamente do autor, mas não vamos repassar suas obras e sim falar sobre uma controvérsias relativamente recente que ronda o nome dele e que fez com que a leitura de seus livros nas escolas fosse questionada.

Antes de começar eu quero deixar claro que eu não estou aqui para questionar o racismo, ele existe desde que o mundo é mundo e acho sim que tem que ser combatido. As pessoas são preconceituosas sim e a própria sociedade incentiva isso condicionando crianças a acharem normal certos comportamentos que disseminam o racismo ainda que com a desculpa de que são brincadeira. Sabemos que esse condicionamento é forte não só para o racismo, mas para várias outras questões como o machismo e o preconceito contra homossexuais, por exemplo.

Com relação ao Monteiro Lobato existem estudos que buscam comprovar a natureza racista do autor e sua obra, o que eu vou usar como base para esse texto foi publicado na revista Dados, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ. Ele é bem didático ao explicar a raiz do problema que foi originado após o envio de uma denúncia encaminhada a Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CEB/CNE), que gerou grande apelo midiático por trazer recomendações que visavam retirar do Programa Nacional de Bibliotecas na Escola (PNBE) o livro Caçadas de Pedrinho escrito por Monteiro Lobato. Essa decisão gerou indignação entre muitas pessoas e, como retratado no artigo, mais de 68% dos textos publicados em jornais e revistas se posicionaram contra a medida, que consistia em:

  1. desenvolvimento de um programa de capacitação de professores para “lidar pedagogicamente e criticamente com o tipo de situação narrada, a saber, obras consideradas clássicas presentes na biblioteca das escolas que contêm estereótipos raciais”;
  2. cumprimento por parte da Coordenação Geral de Material Didático do MEC dos critérios por ela mesma estabelecidos na avaliação dos livros indicados para o PNBE; ou seja, que neles haja “ausência de preconceitos, estereótipos, não selecionando obras clássicas ou contemporâneas com tal teor crítico com a questão do racismo dentro das salas de aula”;
  3. “caso algumas das obras selecionadas pelos especialistas, e que componham o acervo do PNBE, ainda apresentem preconceitos e estereótipos”, a editora responsável pela publicação deve ser instada pela Coordenação Geral de Material Didático e a Secretaria de Educação Básica do MEC a adicionar uma “nota explicativa e de esclarecimentos ao leitor sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos raciais na literatura”.

No link que eu deixei ali em cima você pode ver melhor os argumentos dos autores do artigo, que contém gráficos com a quantidade de matérias publicadas na imprensa por período e por veículo. Depois de fazer esse estudo detalhado eles passam a parte propositiva do texto que tem por objetivo mostrar três coisas:

  1. o caráter inegavelmente racista da obra e do autor;
  2. a necessidade fática da existência do politicamente correto em qualquer sociedade, principalmente nas sociedades democráticas contemporâneas, e sua positividade moral, e, levando em conta os dados mais sólidos acerca do desenvolvimento cognitivo e moral humano;
  3. a inadequação da posição dominante na mídia e, em parte, dos pareceres do MEC, no que toca à questão do uso didático do referido livro.

Para dar força a ideia de que Lobato era racista eles utilizaram sua associação a Sociedade Eugênica de São Paulo, uma carta que ele enviou ao médico baiano Arthur Neiva:

“Escrever é apparecer no tablado de um circo muito mambembe, chamado imprensa, e exhibir-se deante de uma assistência de moleque feeble-minded e despidos da menor noção de seriedade. Mulatada, em summa. Paiz de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan, é paiz perdido para altos destinos. André Siegfried resume numa phrase as duas attitudes. “Nós defendemos o front da raça branca – diz o Sul – e é graças a nós que os Estados Unidos não se tornaram um segundo Brazil.” Um dia se fará justiça ao Klux Klan; tivéssemos ahi uma defeza desta ordem, que mantem o negro no seu lugar, e estariamos hoje livres da peste da imprensa carioca – mulatinho fazendo o jogo do gallego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destróe a capacidade constructiva”.

E usaram também falas de seus personagens em livros que compõem o Sítio e outros. Além disso eles trouxeram um debate sobre o que é o politicamente correto e chegaram a conclusão de que ele existe com base nas noções de certo e errado da própria sociedade e que ele muda com o passar do tempo. Para finalizar, eles trazem uma análise de como a linguagem pode influenciar crianças que ainda estão em formação para mostrar que a recomendação feita pelo MEC foi inadequada. Segundo eles, treinar os professores para problematizar o texto não será suficiente, pois alunos de ensino fundamental e educação infantil não conseguiram compreender a situação temporal.

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Para mim, essa questão é muito maior do que o teor dos livros. Ela entra na adequação dos livros clássicos para a escola, na forma como eles são apresentados as crianças e adolescentes e como o trabalho feito poderia ser muito mais rico para incentivar a criação de leitores de fato. Ser racista na época de Monteiro Lobato era uma coisa normal e hoje já se entende que isso não é bom e precisa ser corrigido e criminalizado. Não dá para punir sua escrita daquela época por isso, mas é preciso sim que a questão seja abordada para gerar debate na escola e lembro muito bem que quando eu estava no Ensino Médio minha professora de Literatura teve essa conversa com a gente e também ressaltou não só a questão racial como também a importância de personagens pícaros como a Emília.

Ao mesmo tempo penso que as notas explicativas por si só também não fazem muita coisa porque nem todo mundo lê ou entende como interpretar, ainda mais no início do processo de leitura. Quanto a modificar o texto para se adequar a nova situação eu acho um absurdo, é um ato de violência contra a memória do autor e a originalidade de seu texto. Eu sei que perdemos muito da originalidade conforme as edições vão passando, mas mudar deliberadamente o texto me dá até taquicardia. Eu sei que essa questão já é um pouco antiga, mas nunca é tarde para conversar sobre essas coisas e não dá mais para falar de Monteiro Lobato sem tocar nesse episódio.

Feliz Aniversário, Lobato! E vida longa ao Sítio que serve para nos ensinar como não devemos tratar os negros.

Abraço.

Ana.

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