Despertar – Parte II

Olá meu bom leitor.

Posto hoje a segunda parte do conto que iniciei semana passada.

Tenha um ótimo ponto para ler!

Segue o link da primeira parte para quem não leu:

Parte I

Despertar – Parte II

Por todo o percurso, Luís via a sua frente a mesma situação, tudo parado, não havia movimento, barulho, ação de um terceiro para quebrar aquele momento de paralisação coletiva.

Assim que chegou a entrada do Eixo Monumental, via que corta a cidade de Brasília de leste a oeste, Luís parou a moto e voltou a olhar o seu relógio. Já eram oito horas da noite. “Como? Eu peguei essa moto a menos de quinze minutos…” pensava ele, mas como se encontrava em uma situação que a lógica não tinha ajudado desde o início do dia resolveu, pelo bem de sua sanidade, resolveu ir para o trabalho.

Ao avançar pelo eixo monumental passando por todos os carros imóveis e pedestres estáticos serpenteando pela enorme via de seis faixas, Luís se assustou novamente ao olhar para o céu e ver que as estrelas estavam correndo como em uma filmagem com o botão de avançar apertado. “Loucura” pensou e ao olhar novamente em seu relógio os ponteiros giravam apressadamente um minuto correspondia a um segundo… Luís foi arremessado… Um barulho forte… Vento forte no rosto… Viu o céu o chão e o céu novamente… Desmaiou.

 Quando recobrou o sentido já havia amanhecido, Luís sentou no meio do asfalto e olhou ao seu redor, viu a moto próxima a um carro. Havia batido ao olhar as horas, a moto estava com a frente completamente amassada e o carro com a traseira destruída. Assustado passou as mãos por todo o corpo, não havia sangue, ficou em pé, deu uns três pulos, mas nada estava quebrado, a roupa intacta. Não se deu o luxo de pensar sobre o fato, pois reparou que estava perto do trabalho. “Tenho que correr se não vou me atrasar mais para o trabalho.” E com esse pensamento saiu correndo.

Correu e seguiu para uma via a direita, a W3 Sul, o escritório ficava bem de frente para essa movimentada avenida. Ao entrar na avenida ele parou novamente. Havia uma manifestação de professores, pelos cartazes e faixas queriam melhores salários. Luís ficou admirado e assustado ao mesmo tempo, centenas de pessoas paradas, umas foram paralisadas no momento em que assopravam apitos, a força que aparentavam fazer com as bochechas cheias de ar faziam-no jurar que aqueles apitos estavam emitindo um grande som. No entanto, não havia som ou movimento vindo de outro ser além de Luís, como em todo o resto da cidade.

Avançou por entre aquelas pessoas atrapalhando o trânsito, que um dia já foi movimentado, e seguiu em direção ao edifício que trabalhava. Passou por dentro de uma enorme galeria que dava caminho ao tão sonhado trabalho. A única coisa que manteve sua cabeça no lugar até então. Ao chegar no fim da galeria deu uma olhada para o céu novamente e viu o sol percorrer uma distância de três horas em um segundo. Tirou o relógio do pulso e o jogou no chão, após aquela demonstração pensou que não precisaria mais de ver as horas. Ao passar pela porta o sol deu outro pulo, e enquanto baixava em uma extremidade do horizonte a lua subia cheia e linda em outra.

Com a chegada da noite prematura, veio também à escuridão, Luís tentou acender a luz, mas ela não acendeu. “Sem luz, sem elevador” pensava ele “E como subir cinco andares de escada na completa penumbra?” Levou as mãos ao rosto e segurando o choro que seria sua entrega a aquela loucura ele se lembrou “o celular!” Por sorte do acaso, ou não, ele sempre ia trabalhar com um celular de modelo simples que tinha uma lanterna, o outro de um modelo mais moderno e caro ele deixava em casa para ocasiões importantes. Verificou a bateria, estava completa, acendeu a pequena lanterna de luz branca e como um pequeno ponto iluminado em meio às trevas adentrou pelas escadas e começou a subir.

Agora o clima era outro, na escadaria do prédio não era como do lado de fora, a escuridão lá dentro era mais densa. A pequena lanterna mal iluminava dois degraus a sua frente, ele se sentia como um animal preso em uma gaiola.

Ao ver uma janela correu para sentir um pouco de ar fresco, a janela não abria e tão pouco ele conseguia enxergar por entre o vidro. Colocou a pequena lanterna em frente ao vidro, inútil, o lado de fora estava tão escuro quanto o de dentro. Por desespero ou por uma claustrofobia repentina tentou soltar um grito, inútil, não saiu um som de sua boca, era como se aquelas trevas absorvessem tudo.

Voltou a subir as escadas loucamente e tropeçando. A medida que ia subindo, maior eram as trevas e menor a claridade de sua lanterna. O desespero aumentava a cada degrau subido, primeiro andar, segundo andar, terceiro andar, se sentou e pensou e que se talvez ficasse ali imóvel talvez ele se tornasse uma peça estática como os demais. Ficou ali sentado sem pensar em nada apenas sentindo aquela escuridão o abraçando e o sufocando aos poucos. De repente se levantou e gritou. Pelo menos a boca se abriu, mas o som não saiu. “Que horas são?” Perguntou-se, olhou para o pulso e se lembrou de que havia jogado o relógio fora. “O celular” se lembrou, apertou um botão e a tela se iluminou. A escuridão a sua volta quase não permitiu que ele enxergasse, mas após apertar um pouco os olhos viu as horas. Jogou o celular no chão e correu subindo a escada. “Estou atrasado”, pensava ele ao olhar no celular as horas no relógio digital que mudava seus dígitos tão rápido que a impressão que dava era que o tempo corria tão rápido que se ele parasse um minuto seria o equivalente há um dia. Subiu o quarto andar e finalmente, após tanto sacrifício, chegou ao quinto. “Estou chegando” pensava consigo mesmo.

Ao se deparar com o corredor escuro, tentou se lembrar qual era a porta do escritório que trabalhava. Começou forçando sua memória para lembrar-se de sua rotina, pensou e pensou, “céus como é difícil se lembrar de atos repetitivos que fazemos diariamente”, pensou ele. Finalmente, após muito queimar sua memória apenas lembrava-se que a porta ficava do lado esquerdo do corredor, mas não se tinha certeza se era a terceira ou a quarta porta e para piorar o seu desespero o celular fez um apito e ao olhar o seu visor Luís percebeu que a bateria já mostrava sinal de fraca.

Começou andando com as duas mãos apoiadas à parede, a cada passo que dava ia tentando se recordar do que havia nas portas para saber em qual exatamente deveria entrar. “Como a visão faz falta”, pensou ele e ainda mais “o quanto um cego deveria sofrer no dia a dia… Cego! Era isso.” A primeira porta era um consultório de oftalmologista, ele sempre achava que aquele médico era um canastrão, “sim lembrei”, as memórias vinham como uma onda em sua mente, na segunda porta era outro tipo de clínica que ele nunca soube ao certo do que se tratava apenas sabia que sempre flertava com a secretária, porém nunca recebeu uma resposta aos seus flertes, o escritório que trabalhava era na próxima porta, a terceira.

A medida que avançava pelo corredor além de vencer o próprio nada, aquela escuridão dava a impressão de que o ar ia ficando mais frio. A cada passo a temperatura ia caindo ainda mais. Assim que chegou a frente da porta do escritório a ponta de seus dedos estavam duras, nesse momento seu celular desligou e a pequena e fraca luz se foi. Luís foi abraçado pela escuridão, se houvesse luz no local ele poderia ver o tom roxeado tomando conta de sua mão e a fumaça esbranquiçada que saia de sua boca a cada respiração. Mas ele não se importava com isso naquele momento, Luís apenas queria entrar e trabalhar, era sua válvula de escape para toda aquela situação.

Ao entrar no recinto após muita dificuldade em pegar as chaves, com as mãos gélidas e sem tato, ele fechou a porta e a trancou. A sensação térmica lá dentro era perturbadora, um frio que alcançava os ossos e uma escuridão que tocava a alma. Após trancar a porta Luís se virou para dentro da sala e encostou as costas na porta. Ele se sentiu perdido, “como trabalhar em um lugar frio e escuro? Estou decidido eu morri e estou no meu inferno pagando pelos meus pecados”, pensou ele se entregando as lágrimas.

– Morto não, mas perto de uma grande descoberta talvez – disse uma voz aguda e irritante. O som vinha de um lado da sala em que a escuridão dava um efeito de ampliação sinistra.

Luís sentia cada palavra que ouvira como socos no estômago, seu corpo estremeceu e todos os fios de cabelo no seu corpo se arrepiaram, o susto fez uma onda de calor tomar conta de seu corpo por uns instantes. Após sua adrenalina diminuir um pouco ele tentou falar, mas nenhum som saiu. Parou por um instante e tentou desesperadamente abrir a porta que havia trancado a pouco, mas no momento de alvoroço as chaves caíram e Luís se jogou ao chão e procurou loucamente pelas chaves passando as mãos por todas as direções. Nesse momento a voz voltou ainda mais irritante – “Está procurando por isso?” – um abajur foi ligado e uma luz em tom de roxo pálido iluminou fracamente o ambiente. Pôde-se notar o estranho ser que andava com as chaves na mão em direção do homem jogado ao chão. Ele aparentava ser um homem bem jovem com um terno elegante de risca de giz, mas não possuía globos oculares.

Mesmo não possuindo olhos Luís se sentia profundamente encarado, as duas cavidades na face daquele homem davam a impressão que ele não olhava o físico, mas sim o espiritual. O homem se aproximou de Luís se agachou em sua frente jogou as chaves próximas às mãos dele e disse.

– Eu pensei que você ia se matar antes de conseguir chegar aqui, Luís, você está atrasado para o serviço.

Luís encolheu-se no chão até ficar em posição fetal, ele não suportava ver aquele rosto sem olhos o encarando, não tentou falar nada, pois sabia que não iria conseguir. Apenas se encolheu o máximo que pode e pensava consigo mesmo, “quem é você?” Como se possuísse uma habilidade mental estranha à figura o respondeu – “Como assim? você não conhece sua própria ganância?”.

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