Crítica de Livro | Para Educar Crianças Feministas

O livro Para Educar Crianças Feministas é a adaptação de uma carta que Chimamanda escreveu a pedido de uma amiga. Ijeawele foi sua amiga desde a infância e se tornou mãe de uma menina e por conhecer a realidade das mulheres na Nigéria, ela pediu a sua amiga, que é ícone do movimento feminista no mundo para lhe dar dicas para educar sua filha desde pequena com os ideais do movimento. Eu nunca tinha lido absolutamente nada da autora e me surpreendi com a simplicidade da sua escrita, ela traz ideias complexas escritas de forma muito simples e com exemplos da rotina de seu país que podem ser aplicadas, em alguns momentos, a situações de outros lugares do mundo.

O livro me impressionou do início ao fim e a leitura foi muito rápida justamente porque ele é bem curto. Com base no pedido de Ijeawele ela dá quinze sugestões de comportamentos que ela deve reforçar ou evitar ao longo da criação de sua filha:

  1. Seja completa;
  2. Façam juntos;
  3. Ensine a ela que “papeis de gênero” são totalmente absurdos;
  4. Cuidado com o perigo daquilo que chamo de Feminismo Leve (Ideia de igualdade feminina condicional);
  5. Ensine Chizalum a ler;
  6. Ensine Chizalum a questionar a linguagem;
  7. Nunca fale do casamento como uma realização;
  8. Ensine Chizalum a não se preocupar em agradar;
  9. Dê a Chizalum um senso de identidade;
  10. Esteja atenta às atividades e à aparência dela;
  11. Ensine-a a questionar o uso seletivo da biologia como “razão” para normas sociais em nossa cultura;
  12. Converse com ela sobre sexo, e desde cedo;
  13. Romances irão acontecer, então dê apoio;
  14. Ao lhe ensinar sobre opressão, tenha o cuidado de não converter os oprimidos em santos;
  15. Ensine-lhe sobre a diferença.

São lições simples, mas boa parte delas nós replicamos de forma a perpertuar  e não nos damos conta que devem ser questionadas. Eu coloquei em negrito as sugestões que eu mais me identifiquei e se você já tiver lido, me conta o que mais te tocou? Sobre a parte literária, não há muito o que falar porque por ser uma carta entre amigas, não se aplica o padrão de texto a que estamos acostumados em um romance, por exemplo. Mas o texto é muito bem escrito e o que mais importa são as ideias contidas nele, que são muito bem encadeadas e explicadas.

Confesso que tinha um pouco de dificuldade de me assumir como feminista porque não entendo que o movimento pregue a supremacia da mulher sobre o homem, mas vejo essa ideia sendo bastante difundida por aí. Depois desse livro percebi que eu estava marcando bobeira, porque o movimento feminista é nada mais que a busca por direitos iguais entre mulheres e homens. Essa é a essência dele e por conta disso eu tenho muito mais direitos do que as mulheres do século XIX, por exemplo. Essa ideia de igualdade de direitos vem sendo perigosamente confundida com a igualdade total entre homens e mulheres e isso me desagrada também, porque biologicamente somos diferentes e por isso não basta apenas irmos atrás de igualdade em todos os sentidos.

Digo isso porque existe uma diferença muito sutil entre igualdade e equidade. A igualdade dá as mesmas coisas para todos, independente das necessidades individuais de cada um, já a equidade deixa todo mundo em condições iguais respeitando as diferenças de cada um. Tem uma imagem que deixa isso muito fácil de entender:

É uma diferença muito sutil, pois quando se pede igualdade de direitos supõe-se que alguém está em condição mais favorável e os casos devem ser analisados para ver o que pode ser feito para deixar todos com as mesmas condições, ainda que seja necessário medidas diferentes. Voltando ao livro, vou deixar aqui algumas frases que me marcaram muito durante a leitura:

“Nos discursos sobre gênero, às vezes, há o pressuposto de que as mulheres seriam moralmente “melhores” do que os homens. Não são. Mulheres são tão humanas quanto os homens. A bondade feminina é tão normal quanto a maldade feminina. E existem muitas mulheres no mundo que não gostam de outras mulheres. A misoginia feminina existe e esquivar-se a reconhecê-la é criar oportunidades desnecessárias para que as antifeministas tentem desacreditar o feminismo.”

Eu sou um exemplo de quem desacreditava o feminismo por conta desse tipo de discurso e falei bastante sobre isso ali em cima, então vou poupar a repetição e ir para a próxima frase 🙂

“Se uma mulher diz não ser feminista, a necessidade do feminismo não diminui em nada. No máximo, isso nos mostra a extensão do problema, o alcance real do patriarcado. Mostra-nos também que nem todas as mulheres são feministas e nem todos os homens são misóginos.”

Essa frase para mim é importante porque o mostra o movimento como algo independente. Ele não existe apenas porque alguém acredita nele, não é preciso que todas as mulheres sejam feministas para que ele seja necessário. Ela mostra também que não dá para ser maniqueísta e eu venho aprendendo muito sobre isso ao longo do tempo.

“Nossa premissa feminista é: eu tenho valor. Eu tenho igualmente valor. Não “se”. Não “enquanto”. Eu tenho igualmente valor. E ponto final. A segunda ferramenta é uma pergunta: a gente pode inverter X e ter os mesmos resultados?”

É uma questão de ter valor, de exercer o mesmo trabalho e ganhar o mesmo salário, de poder se expressar, de poder se vestir, sair desacompanhada sem ter medo a cada esquina… E também é a empatia, se eu me colocar no lugar daquela pessoa, como seria? É difícil, mas é o exercício número um para não ser babaca independente do assunto.

“O trabalho de cuidar da casa e dos filhos não deveria ter gênero, e o que devemos perguntar não é se uma mulher consegue “dar conta de tudo”, e sim qual é a melhor maneira de apoiar o casal em suas duplas obrigações no emprego e no lar.”

Quando vejo uma mulher falando de jornada dupla ou tripla como se isso fosse uma coisa que só as mulheres devem ter me dá até calafrio… Eu fico pensando, será que o marido dela fica de boa no sofá enquanto ela cuida de tudo? Porque a casa e os filhos são dos dois então nada mais justo que os dois se apoiem nessa jornada dupla ou tripla. Na minha casa mesmo isso é muito natural, todo mundo cuida de tudo evitando deixar o outro sobrecarregado é, de novo, um exercício de empatia.

“Nunca lhe diga para fazer ou deixar de fazer alguma coisa “porque você é menina”. “Porque você é menina” nunca é razão para nada. Jamais.”

O mesmo serve para o “porque você é menino” 😉

Estamos tão condicionados a pensar o poder como coisa masculina que uma mulher poderosa é uma aberração. E por isso ela é policiada. No caso de mulheres poderosas, perguntamos: ela tem humildade? Sorri? Mostra gratidão? Tem um lado doméstico? Perguntas que não fazemos a homens poderosos. Julgamos as poderosas com mais rigor do que os poderosos. E o Feminismo Leve permite isso.

Aqui no Brasil isso ficou muito claro quando a Dilma assumiu a presidência, diziam que ela era muito rude, ligaram sua rispidez a sua orientação sexual e muitas outras pérolas ligadas a imagem dela também… Nas grandes empresas também é bem raro ver uma mulher no comando, mas imagino que a seleção deve ser bem complicada, deve ser interessante conversar com a mulher que assumiu a GE do Brasil por um tempo, ela deve ter muitas histórias inusitadas para contar.

“Se você critica X nas mulheres e não critica X nos homens, então você não tem problemas com X, mas com as mulheres. X pode ser palavras como raiva, ambição, extroversão, teimosia, frieza, insensibilidade.”

Mais um exercício simples de empatia para a conta. Observe isso e vai perceber que as vezes no dia a dia cometemos esse deslize apenas por sermos condicionados a isso desde que nascemos. Identificar esse comportamento e tentar mudar a chave é parte do processo.

Ainda tem muuuitas frases que me chamaram a atenção na leitura, mas já me alonguei bastante então posso fazer outra postagem com mais algumas frases para motivar homens e mulheres a ler esse livro. É uma leitura gostosa e que dá muito material para pensarmos, principalmente sobre a cultura da nossa sociedade. Sobre a forma como somos condicionados sobre vários temas desde pequenos. O que eu mais gostei é que apesar de falar sobre feminismo você pode inverter as variáveis que ela usa e aplicar para homossexualismo, racismo e várias outras questões que acompanham a nossa sociedade desde sempre. É um bom livro para questionar o status quo e por isso eu amei a leitura e indico a todos que estiverem abertos a se questionar e a mudar suas atitudes.

Livro: Para Educar Crianças Feministas

Autora: Chimamanda Ngozi Adichie

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 96

Capa: 8,00

Continuidade: –

Personagens: –

Cenários: –

História: –

Narrativa: 10,00

Diálogos: –

Revisão: 9,50

Nota Final: 9,16

Resultado: Muito Bom

*Deixei algumas notas em branco porque o livro é uma carta e não pode ser avaliado da mesma forma. Fiz uma média com as notas que avaliei e esse é o resultado. Leiam!

Por hoje é só. Até a próxima!

Ana.

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3 Comentários

    1. Oi Bárbara!
      Eu gostei MUITO da leitura! Espero que você leia e aprenda muito não só sobre o feminismo, mas sobre como se comportar diante do diferente.
      Beijos,
      Ana.

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