Crítica de Livro | Os escritores que eu matei

Oi pessoal!

A crítica de hoje do Julho Brasileiro é do livro do escritor Marco Severo, representante do estado do Ceará que vem para fechar a nossa semana dedicada a região nordeste. Como a ideia é sempre sair da zona de conforto escolhi o livro Os escritores que eu matei, primeiro porque achei o nome muito legal e segundo por ser uma seleção de crônicas.

Essa foi a primeira vez que eu me dediquei a um livro de crônicas, sim, assim como as poesias (já expliquei o meu problema com elas nessa postagem), eu tinha um certo bloqueio (que se estendia a qualquer texto que não fosse romance) com as crônicas. Só que esse foi o ano da virada, mas isso é história para um outro post 😉

Sair da zona de conforto com esse livro foi uma grata surpresa porque Marco Severo tem uma escrita afiada e aborda temas que, para uma leitora de carteirinha como eu, inquietam a alma. Somos apresentados a 32 crônicas que abordam questionamentos que leitores de todo o mundo farão ou já fizeram ao longo de sua jornada literária. Alguns textos já foram publicados  em blogs, mas o conjunto da obra é resultado de quatro anos de trabalho.

De início eu já fiquei impactada pelo título que nos mostra que as crônicas vão falar sobre livros e experiências de leitura. Nesse ponto não sou especialista, mas já vi vários romances que falam de livros serem classificados como metaliteratura e acho que ,se o termo se aplicar a crônica, é exatamente o que encontramos aqui, pois Os escritores é uma seleção de crônicas para falar sobre livros e comportamentos de leitores e escritores.

No geral, a experiência de leitura foi bem gostosa, mas no início, por conta do cérebro treinado para ler romances, eu tive dificuldade para me acostumar ao fato de que os textos são curtos e por melhores que sejam eles não vão ocupar todas as páginas do livro. Era como se lá dentro eu lesse as 3 ou 4 páginas da crônica e pensasse que o autor ia desenvolver mais porque ainda havia muitas páginas para serem lidas e porque, óbvio, eu estava gostando da linha de raciocínio adotada.

Depois que eu consegui me acostumar com o formato (e isso foi bem rápido, depois da quinta ou sexta crônica) a leitura fluiu muito bem e essa sensação de que estava faltando algo passou. Volto a ressaltar que essa sensação é exclusivamente minha, pois a escrita de Marco Severo é poderosa. Ele tem um domínio do uso das palavras que não vemos com tanta constância nos livros que lemos por aí e isso faz a experiência ser ainda mais interessante porque em alguns casos você pode se deparar com palavras que nunca usa em seu dia a dia. E isso, pelo menos para mim, não é algo ruim, pois é uma chance de se aprender o novo e nossa língua é tão extensa e bela que conhecê-la por inteiro é uma pretensão das mais bobas.

Outra coisa que me chamou a atenção foi o tom das críticas, em alguns pontos elas chegam a ser duras:

“Há um fenômeno na literatura brasileira que tem se agravado mais a cada ano: os jovens da nossa literatura que se dão ares de celebridade. Seja porque se tornam midiáticos com o advento das redes sociais, seja porque as editoras fazem matérias pagas parecerem elogios verdadeiros (…)”

Literatura é fingimento ou o carnaval dos curumins

Mas extremamente condizentes com a realidade, tanto que uma grande editora no ano passado estava classificando seu escritor estreante como novo fenômeno literário. Há ainda as críticas ácidas e bem humoradas:

“Existe na cultura ocidental – e não me arrisco a dizer na cultura mundial porque não sei como isso funciona no Oriente – uma tendência a tratarmos determinados artistas como se fossem monarcas – o “rei” Roberto Carlos, a “rainha” Xuxa, o “rei” Elvis Presley e por aí vai -, o que já faz os mais atentos ficarem de sobrancelha erguida com essa necessidade cultural inventada sabe-se lá por quem e com quais fins. Pelo menos é de se admirar que em países onde o sistema democrático está instalado há tantos anos exista saudade de uma monarquia. Vá entender.”

Endeusamento literário

Eu nunca tinha olhado por essa perspectiva, mas vi bastante sentido e hoje eu levanto a sobrancelha para expressões como “fulana(o) é deusa(o)“, “cicrano(a) tombou” e “que tiro de livro”. Que eu entendo como variações dessa necessidade de ser hiperbólico. Apesar do tom crítico, seus textos mudam de tom em alguns momentos e passam a ser bastante saudosistas:

“Para minha felicidade, éramos eu e ela, juntos de novo, nos sorrindo. Sem dúvida, nos víamos, eu e o livro, de forma diferente. Mas nos reconhecíamos com um olhar astucioso e cheio de encantamento. Compreendi então que um amor redescoberto é também um amor reconquistado.”

Um amor (literário) redescoberto

Quem nunca se decepcionou ou se reencontrou relendo algum amor literário do passado que atire a primeira pedra! Antes de terminar eu preciso dizer que uma das crônicas dá nome ao livro e não posso contar muito sobre ela para não tirar o gostinho da descoberta da sua experiência de leitura. Posso adiantar que ela começa com um tom de humor, mas termina com uma reflexão muito importante sobre escolhas, mudanças e a morte.

Pesquisando pela internet e vendo na própria orelha do livro, vi que esse livro foi publicado inicialmente em 2015 pela Substânsia e, na primeira publicação, essa crônica fechava o livro. Nessa nova edição, publicada ano passado pela Editora Moinhos, Marco escreveu mais seis crônicas e elas me chamaram atenção por abordar temas do passado que permanecem atuais e algumas reflexões do nosso tempo como o estranho costume da biblioteca ser o lugar de castigo de alunos encrenqueiros e o hábito de se queimar livros, a mudança que vamos sofrendo (ou não) como leitores com o passar dos livros e anos, a dificuldade de se vender livros de forma pessoal em tempos de Amazon, o saudosismo de se redescobrir um amor literário, a paciência e o respeito que devemos ter ao tentar criar um leitor ou incentivar alguém que já tem o hábito de leitura a se abrir para o que ainda não conhece e, por fim, a possibilidade de ser independente no mercado editorial.

O livro é uma pérola e me fez pensar muito sobre o meu comportamento como leitora e, principalmente, como eu consumo literatura. A inteligência e sagacidade presente a cada palavra escrita por Marco nos mostram que não existe regra para o mundo literário, mas há sinais de que a lógica do mercado editorial vem sendo posta em cheque nos últimos anos e nós leitores temos a capacidade de determinar o que esperamos dele.

Foi uma delícia conhecer a escrita de Marco Severo, retomar um contato rompido com a crônica e me redescobrir, mais uma vez, como leitora. Se você ainda nunca ouviu falar desse escritor, comece a pesquisa por seu instagram (@marcosevero81), além de poder conhecer as outras obras dele (Marco acaba de publicar o quarto livro: Coisas que acontecem se você estiver vivo) você ainda terá contato com seu lado bem humorado e seus gostos literários, pois ele compartilha conosco livros lidos, leituras em andamento e uma infinidade de coisas que lhe são caras.

Foi um prazer, Marco!

Ps.: O Paulo já fez uma crítica do livro Todo naufrágio é também um lugar de partida, segundo da carreira do Marco Severo, mas ela foi feita em 2016 e, como já contei nesse post, perdemos tudo o que publicamos nesse ano. No entanto, não se preocupem, ele está na minha listinha de leituras e pode ser que role uma nova versão da crítica feita por mim ainda esse ano! (E estou aqui pensando que sem querer vou ler a obra dele em ordem quase cronológica \o/)

Sinopse

Livros são vertentes para a vida, e a vida é, na maioria dos casos, melhor do que a morte. Viver implica em criar, em transgredir, em se reinventar. A leitura escancara todas essas possibilidades. É a arte. Octavio Paz já dizia que o homem nada mais é do que imaginação e desejo. É através do sublime ato criador que podemos chegar aos píncaros do gozo.

Livro: Os escritores que eu matei
Autor: Marco Severo
Editora:  Moinhos
Páginas: 145

Capa: 10,00
Crônicas: 9,50
Revisão: 10,00

Nota final: 9,83 (Muito bom)

Até a próxima!

Ana.

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