Crítica de Livro | Novena para pecar em paz

Oi pessoal!

Hoje vou falar sobre um livro que foi escrito não por apenas uma escritora e sim nove e todas moradoras de Brasília, o que deixa a proposta ainda mais interessante por poder cruzar com elas pela cidade quando menos se espera. Antes de falar o que eu achei do livro preciso contar para vocês como essa antologia começou, curiosos?

A editora Penalux teve a ideia de fazer uma antologia de contos escrita apenas por mulheres em vários estados do Brasil e para isso convidou algumas escritoras para organizar os textos. Aqui em Brasília, a organizadora foi a Cínthia Kriemler e a seleção de contos está primorosa. São nove contos de autoria das seguintes escritoras:

  1. Beatriz Leal Craveiro – Luz Negra
  2. Cínthia Kriemler – Destino
  3. Lisa Alves – Estranha fruta
  4. Lívia Milanez – Caule de mogno
  5. Maria Amélia Elói – As duas irmãs
  6. Mariana Carpanezzi – Manual de mergulho
  7. Patrícia Colmenero – Santa felicidade
  8. Paulliny Gualberto Tort – Mirna
  9. Rosângela Vieira da Rocha – O bolso do vestido azul

Eu já namorava algumas delas há um tempinho e ver todas no mesmo livro me incentivou a fazer a leitura logo no início desse ano. Já posso adiantar que foi uma experiência muito boa porque fui surpreendida com a qualidade dos textos de todas e isso fez com que eu engolisse o livro terminando todos os contos em apenas dois dias, mas se você tiver um tempo maior disponível dá para ler em uma sentada com certeza, mas pode ser que vez ou outra você precise de um tempinho para respirar e digerir as histórias contadas.

Beatriz Leal escreveu o conto Luz Negra, onde conhecemos a história de Paula uma garota que tem um relacionamento abusivo. O mais interessante é que sabemos a história da protagonista pelos olhos de outra mulher, Roberta, uma amiga do marido de Paula que não acredita no amor e, aos poucos, vai percebendo que o que Rodrigo fala de Paula não é bem a realidade do relacionamento dos dois. O abuso vivido por Paula se chama Gaslighting, que é uma forma de manipulação psicológica onde o gaslighter faz o outro acreditar que está ficando louco. Esse conceito é trazido pela própria autora ao final do conto e ela fala inclusive o contexto em que ele foi criado. Eu gostei demais desse conto, a força que ele tem e o questionamento da forma como Roberta enxerga Paula no início e a mudança depois que ela presta um pouco mais de atenção. Você vai ter trechos do conto narrados pela Paula, mas é Roberta que dá o tom da história e aos poucos você vai perceber que existem muitas Paulas, Rodrigos e Robertas por aí.

O conto de Cínthia Kriemler se chama Destino e só de pensar na forma como ela trabalhou a ideia de inevitabilidade eu fico arrepiada. Sua protagonista narradora não tem nome e o conto começa com ela acordando no hospital aos 11 anos. Ela é filha de uma prostituta e está no hospital porque foi vítima de um incêndio dentro da própria casa, a vida dela muda completamente depois desse acidente e a autora vai mostrando aos poucos como as vezes a vida vai seguindo um fluxo que nem sempre a pessoa consegue evitar. A impressão que eu tive é que se alguém tivesse olhado para ela com um pouco mais de atenção e oferecesse alguma oportunidade as coisas poderiam ser diferentes, mas existem muitas garotas como a protagonista que vivem a margem do mundo de privilégios que vivemos. Aquele vídeo que o psicólogo vai pedindo para as pessoas darem um passo a frente caso se encaixem na situação que ele cita ilustra bem o que acontece aqui nesse conto, uma criança que não teve o mínimo de privilégio na vida e, aos poucos, vai sendo soterrada pelo peso do destino. Ainda que as escolhas possam ser feitas e refeitas ao longo da vida, quando não se tem uma rede mínima de apoio é difícil até saber que se pode escolher alguma coisa.

Lisa Alves, em Estranha Fruta, fala sobre duas mulheres que vivem um relacionamento homossexual em que uma delas é espancada até a morte. Esse conto é forte, mas necessário e nos mostra uma mulher que acabou de perder o grande amor da sua vida de forma brutal. O pior de tudo é que ela não conta com o apoio de ninguém, ainda que ela já saiba quem foi o culpado. É uma história para prender a respiração do início ao fim.

Um caule de mogno, de Lívia Milanez, conta a história de uma mulher trans que não é aceita pela família. A avó é a única que acolheu a garota e ela vive na casa dela. A ceia de natal se passa na casa da avó e hoje ela sequer pode dormir no mesmo quarto do primo, pois ela não é mais bem quista. É como se ela tivesse alguma doença que pelo mero contato já espalhasse seu mal por qualquer um. Todos a excluem, mas comem a comida preparada por ela sem achar ruim. Após o almoço de natal ela tem um comunicado a fazer e a forma como todos reagem é para lá de esperada, mas ela já não tem mais porque se odiar e isso dá uma possibilidade de final feliz a sua história.

Maria Amélia Elói, escreveu As duas irmãs e esse conto está entre os três melhores do livro para mim, antes de mais nada vou mostrar essa frase:

Lamentar é pra gente murcha. Esse negócio de vítima não é comigo. Minha única doença é ser mulher, mas não quero cura.

Essa é Leonora, mãe de Renata e Ritinha. A três foram abandonadas pelo marido/pai quando elas ainda usavam fraldas. E ela cria as duas sozinha por anos, até resolver que era o momento para procurar um novo homem. Quando Jurandir chega ele até coopera em casa, porque não dar valor a ele? Essa é uma história das mais comuns do nosso Brasil, mas a forma como é contada faz toda a diferença nesse caso.

Manual de mergulho é o conto escrito por Mariana Carpanezzi e ela nos traz uma mulher cheia de saudade, que vivia um relacionamento entre continentes, ela vai nos dando elementos de Brasília e da Islândia e nos mostra as mudanças sutis nos pensamentos da protagonista.

Patricia Colmenero escreveu Santa Felicidade é a história de uma mulher comum típica mãe de família que cuida dos pais, do esposo e dos filhos. Você já deve ter cruzado com várias Marias como essa do conto, que sente que o controle do caos da vida é feito através da limpeza, que cultiva superstições, quilos a mais e idas quase que diárias ao mercado. É uma história super comum, mas extremamente bem escrita que faz você querer saber cada detalhe da rotina da Dona Maria, que conhece intimamente até os mendigos que ficam perto do mercado.

Mirna é o conto de Paulliny Gualberto Tort a mulher que ela nos apresenta é quase uma morta viva, fiquei em dúvida se ela seria uma vítima de depressão, mas  o marido não percebe nada. Seus pensamentos em alguns momentos são desconexos e ela oscila entre a vontade de se matar e a de sumir pelas pistas de asfalto desse mundão afora. Até mala pronta ela já tem para quando sai de casa. É uma personalidade bem diferente, porque enquanto boa parte dos contos trazem mulheres cheias de força, essa é cheia de fraquezas e não é menos mulher por isso, de repente ela só precisa de um olhar mais atento… Fiquei impactada com Mirna e suas indecisões.

Rosângela Vieira escreveu o O bolso do vestido azul a história de uma mãe que está enterrando a filha que morreu prematuramente em um acidente de trânsito. Sua missão é entrar no apartamento da filha e escolher a roupa que ela irá usar durante o funeral, durante essa busca ela se depara com um segredo da filha que ela nunca imaginou. A dor que ela transmite no início do conto é de cortar o coração, ela fala sobre a ordem natural das coisas é que devia ser proibido uma mãe enterrar uma filha e soa tão real que até eu que não tenho filhos consigo sentir.

Que livro! Que mulheres! Todos os contos trazem mulheres completamente diferentes uma das outras e mostram que somos uma diversidade sem fim. Que honra poder ler e conhecer boa parte das escritoras!

Sinopse

Nesta coletânea, Cínthia Kriemler (org.), Beatriz Leal Craveiro, Lisa Alves, Lívia Milanez, Maria Amélia Elói, Mariana Carpanezzi, Patrícia Colmenero, Paulliny Gualberto Tort e Rosângela Viera fixam as mulheres no centro da narrativa e, a partir delas, imaginam universos possíveis. Os corpos que essas mulheres habitam têm um papel central no desenrolar de suas histórias, pois é a completude e a complexidade do ser feminino que dá o tom. Ser como verbo e não como substantivo, ser em ação. Então, nos deparamos com o diverso, o múltiplo, matizes de personagens com ou sem nomes, cem jeitos de observar, olhos atentos tanto às formigas sensoriais quanto às questões metafísicas que nos invadem a todas.

Natalia Borges Polesso

Livro: Novena para pecar em paz
Autora: Cínthia Kriemler (org.), Beatriz Leal Craveiro, Lisa Alves, Lívia Milanez, Maria Amélia Elói, Mariana Carpanezzi, Patrícia Colmenero, Paulliny Gualberto Tort e Rosângela Viera.
Editora: Penalux
Páginas: 99

Nota Final: 9,10 – Muito Bom. (A nota é a média das notas de cada conto)

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