Crítica de Livro | Cantigas de Ninar Dragões

Olá, leitores!

Depois que terminei de ler esse livro de poesias do Rogério Bernardes senti a necessidade de falar um pouco sobre o meu sentimento com relação a poesia. Já contei aqui outras vezes que a minha relação com a literatura vem desde quando eu era criança, mas a realidade é que minhas leituras se resumiam a romances. Meu primeiro contato com livros de outros tipos narrativos aconteceu apenas na segunda fase do ensino fundamental com aqueles basicões ‘Para gostar de Ler’ (lembra deles?).

[…]

A terra que me jogam selará minha sina

O vento agreste das tristezas

Espalhará o que já foi e o que será

E eu crescerei

Em forma de fino galho

Ou de secas folhas

Beijadas pelo orvalho

Do amanhã que há de vir

[…]

Fractais

Nessa época eu tinha muita dificuldade para entender coisas mais abstratas e juntando isso a falta de maturidade acabei criando resistência a poesias. Com o passar do tempo reconheci a importância de grandes nomes como Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Vinícius e tantos outros, mas não consegui me identificar com os textos de jeito nenhum. Quando terminei o Ensino Médio não tive mais a obrigação de ler poesias e continuei a ler apenas romances. Até que em junho desse ano recebemos um convite para o lançamento de Cantigas de Ninar Dragões e depois de conhecer Rogério e sua simpatia achei que era hora de tentar de novo (10 anos de afastamento já estava de bom tamanho,né?!).

[…]

Minha cantiga de início, era lamento

Mas eis que acalmou os dragões

Que voaram ao redor de minha sombra

Sem mais me ameaçarem o ar

Esconderam-se sob minhas veias

Como gatos domésticos alimentados

Elá adormecem sem previsão de acordar

[…]

Cantiga de Ninar Dragões

Peguei o livro acreditando muito que esse tempo me fez bem e que eu estava pronta para tentar novamente, comecei a ler as poesias de coração e mente aberta para o que ele poderia me oferecer e, minha nossa, que surpresa! Mesmo estando aberta às palavras dele eu não pensei que me conectaria tanto. Como tive dificuldade para entender poesias no passado, eu optei por fazer a leitura de cada uma duas vezes, para ter certeza de que eu estava entendendo a mensagem que era passada a cada verso. Assim que terminava de ler uma vez, dava aquele suspiro e lia de novo sempre me surpreendendo com a carga de emoção que o autor colocava em cada poesia.

Comecei engolindo o livro de tão envolvida que eu estava, li quase um terço de uma vez só. Depois de ler O Armário, uma das minhas preferidas, resolvi pisar no freio e apreciar melhor o passeio. Até que em setembro eu li a poesia que dá nome ao livro e me senti super feliz por ter conseguido fazer as pazes com a poesia.

[…]

Aquele armário

A cada ano mais apertado

Já não continha o rapaz crescido

Ainda sozinho, mas fortalecido

Em um golpe de machado e coragem

Foi esfacelado até vir ao chão

Não será mais eclipse de uma vida

Que só o pobre pai não viu

[…]

O Armário

Enquanto lia, tive a oportunidade de ver o Rogerio declamar algumas poesias e vê-lo falar sobre o processo de escrita o que reforçou a sensação que eu tive de que os textos eram extremamente pessoais, você percebe que muito do que está escrito ali foi vivido por ele em algum momento.Uma coisa que me marcou muito foi quando ele disse que escolheu o título do livro porque escrevendo poesias ele percebeu que ele não precisa enfrentar e matar todos os dragões que o amedrontavam, as vezes era necessário apenas colocá-los para dormir.

E o mais interessante é perceber os dragões que motivaram cada poesia, como ele contornou cada um deles e seguiu adiante independente do mal que eles lhe causavam… Eu sei que poesia é um tipo narrativa que é colocado a margem aqui no Brasil, mas é importante que o trabalho desses escritores também seja reconhecido. Eles são tão escritores como qualquer outro e, como tudo que é literatura, tem o poder de transformar ainda mais rápido que um romance por trazer um mensagem mais curta e direta.

Ao longo do texto compartilhei trechos das minhas preferidas e para finalizar vou deixar a íntegra de uma que me impactou muito durante a leitura:

Não sejas pássaro de belas plumas

Se a gaiola for teu mundo

Recusa a rosa sem espinhos

Pois é a dor que a faz mais bela

Não te contentes com a capa

Do livro que não te toca

A vida quer de to o que sempre cobras dela:

Emoção, lembranças, dias que não irão

Sem antes cobrarem a saudade

Não faças de ti mesmo um calendário

A ser riscado ao fim de novo dia

Ao começo de velha história

Acorda! Cospe! Grita!

Sê tudo, menos constância

Quando do tempo não sobrar nada

Sê ainda remanescência

Da angústia que te fez sopro

Da infinitude que te fez grão

Como barquinho em poça d’água

Não vás aquém do que o vento leva

Se queres ar, abre teu peito

Se almejas vida, iça tuas velas!

Içando Velas

As poesias não podem ser avaliadas da mesma forma que os romances, então a nota de hoje vai ser uma média das notas que eu dei para cada uma isoladamente:

Livro: Cantigas de Ninar Dragões

Autor: Rogerio Bernardes

Editora: Penalux

Páginas: 153

Nota: 9,25*

Não vejo a hora de me encontrar com mais poesias, muito obrigada Rogério! Por proporcionar um momento de leitura tão agradável.

Leiam poesias e até a próxima!

*nota atribuída pelo geral da experiencia da leitura, sem nenhuma conotação técnica em relação a obra.

Ana Paula Duarte

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