Crítica de Livro | As Três Marias

Olá, leitores!

Hoje é dia de mais uma crítica aqui no blog e vou contar minhas impressões sobre a leitura de As Três Marias, quarto romance de Rachel de Queiroz, escrito em 1939. Foi o meu primeiro contato com a escrita dela e posso dizer que foi uma experiência bem diferente, principalmente pela natureza do livro, que pode ser considerado um Romance de Formação (em breve faremos um post explicando o que é isso para vocês). A escolha desse primeiro livro foi sorte do acaso, pois ele fez parte do kit de novembro da TAG – Experiências Literárias indicado pela Heloísa Buarque de Holanda, grande estudiosa da obra literária de Rachel.

Assim que o livro chegou eu comecei a ler e a história que é uma aula de escrita e força. A narradora se chama Maria Augusta e nós acompanhamos alguns anos de sua vida, desde o momento que ela entra em um internato para meninas até seus 20 anos mais ou menos. No internato, ela conhece Maria José e Maria da Glória, as três viram amigas e acompanhamos o desenrolar da vida das outras duas junto com a história de Guta. Essa trinca de Marias dá nome ao livro e era assim que elas eram chamadas no internato, por estarem sempre juntas. Elas gostavam do apelido por conta da Constelação das três marias e cada uma se identificou com uma das estrelas que a compunha. Maria da Glória, a mais brilhante, Maria Augusta a do meio e Maria José a última.

A forma como Guta vai narrando os acontecimentos de sua vida nos levam a uma leitura linear e sem muitas surpresas que mostram as dúvidas e receios primeiro da criança, que se sente abandonada pelo pai após a morte da mãe até a jovem adulta que deseja fugir das lembranças do passado, mas sempre busca o aval masculino para tomar decisões. Eu não sou escritora, mas tenho a impressão que escrever bem uma história desse tipo é mais difícil que escrever aquelas cheias de fatos, personagens, acontecimentos e viradas. Parece que para um texto linear ser bom e prender a pessoa, o escritor tem que ter mais domínio da língua e das técnicas narrativas para conseguir prender o leitor sem entregar algo entediante. E, para mim, As Três Marias não tem nada de entediante.

É uma visita ao Brasil, mais especificamente do Ceará, da década de 30 e talvez a alguns fatos da vida da própria Rachel já que ele é considerado auto biográfico. Você tem a oportunidade de conhecer uma personagem que é forte e ao mesmo tempo dependente tanto das amigas como dos homens que a cercam. A forma como o trio de Marias é representado também é interessante porque a José é a personificação das beatas daquela época, a Glória é a que encontra o príncipe e sempre teve sorte na vida, já Guta sempre foi pobre, nunca teve privilégios e é como se fosse o equilíbrio entre as outras duas.

Sei que esse é o tipo de livro que não agrada a qualquer leitor. Eu sempre fui muito acostumada a ler fantasia e por isso acabo esperando que as histórias sejam recheadas de ação, mas tenho aprendido a ler esses romances mais tranquilos em que o narrador te leva pela história e você continua apenas pelo prazer de acompanhar a sua trajetória sem compromisso com a necessidade de desvendar algo. É o segundo livro desse tipo que leio e tenho a impressão de que vou me adaptar ainda mais aos próximos. No início causa aquele estranhamento, uma sensação de que aquilo é monótono, mas quando você se abre e passa a prestar atenção de verdade no que está sendo dito você começa a ver que existem críticas e que, na maioria das vezes, elas estão nas entrelinhas.

As críticas aparecem com força nesse livro, a principal, a meu ver, questiona o papel da mulher na sociedade, a própria Guta não consegue se ver no papel de dama perfeita assim que sai do internato e prefere trabalhar. Também há críticas sobre a desigualdade social e a segregação feita pelas próprias freiras entre os órfãos e as meninas do internato. Critica-se a ideia de que cada um deve se contentar apenas com aquilo que foi reservado a si em virtude de sua condição social e como isso é imposto as crianças desde cedo impedindo-as de sonhar. Várias outras críticas aparecem também, mas é parte da experiência ir descobrindo-as aos poucos afinal cada um interpreta as coisas de um jeito e você pode enxergar coisas que eu não vi.

É um livro que deve ser revisitado com o tempo, porque a Ana que conversou com a Guta agora com certeza vai ouvir de coisas diferentes daqui a alguns anos. Foi uma baita surpresa para mim porque eu não sabia muito bem o que esperar desse livro, que eu nem sabia que existia até recebê-lo, mas me cativou e me fez querer conhecer ainda mais a escrita de Rachel, uma escritora feminista que não se considerava feminista. Que venha O Quinze e Memorial de Maria Moura!

Sinopse

Quarto romance de Rachel de Queiroz, o livro aborda o papel da mulher na sociedade através de Maria Augusta, Maria da Glória e Maria José, amigas inseparáveis apelidadas com o nome popular da constelação de Órion. Seus destinos apontam para diferentes direções: a maternidade, a religião e a liberdade. O romance, um dos mais populares em toda a obra de Rachel, é um importante marco na literatura brasileira.

Livro: As Três Marias
Autora: Rachel de Queiroz
Editora: TAG/José Olympio
Páginas: 223

Capa: 9,50
Continuidade: 10,00
Personagens: 10,00
Cenários: 9,50
História: 9,50
Narrativa: 9,50
Diálogos: 10,00
Revisão: 9,00

Nota Final: 9,62 – Muito Bom.

Ana Paula

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