Crítica de Livro | A Amiga Genial

Oi, pessoal!

Estamos a um mês do dia internacional da mulher e esse ano resolvemos fazer uma série de postagens em homenagem as escritoras do Brasil e do mundo antes do dia 08/03. A crítica de hoje inaugura essa série de posts com Elena Ferrante e toda segunda, quarta e sexta abordaremos temas diferentes por aqui. Conheçam um pouco da escritora sem rosto mais famosa de toda a Itália 😉

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O livro A Amiga Genial foi a minha primeira leitura do ano e também o primeiro contato que tive com a escrita de Elena Ferrante, a escritora mais enigmática da história da Itália. Esse livro foi a escolha de janeiro do Grupo de Leitura Pacto Literário e eu fiquei muito empolgada quando ele foi escolhido porque eu queria MUITO ler algo dela, passei o ano passado todinho falando isso para o Paulo, tanto que eu fui a primeira do grupo a ler e terminei ainda na primeira semana do ano (#quemnunca). O fato é que a empolgação foi recompensada porque o livro é extremamente bem escrito e eu me apaixonei pela história com protagonistas dúbias.

O livro é parte de uma tetralogia chamada Napolitana cuja história se passa em Nápoles, cidade italiana onde as persongens principais Lenu (Elena) e Lila (Rafaela) cresceram. O livro também se encaixa no grupo dos romances de formação porque quando Lenu, já adulta, recebe a ligação de Rino dizendo que Lila sumiu sem deixar vestígios, ela resolve escrever a história da vida e amizade das duas meio que para provar que Lila viveu e não pode apagar isso. O início é bem simples, assim que recebe o telefonema com a notícia de que ela está sumida e deu um jeito de apagar sua presença até das fotos de família, Lenu começa a escrever a história da amizade das duas desde quando elas ainda ainda nem se conheciam.

O início não é completamente linear, ela começa a narrar um momento específico, acaba misturando alguns outros momentos conectados com aquele até que volta e conclui o que iniciou, mas isso não acontece o tempo todo, parece que é só enquanto ela está calibrando a forma de dizer o que ela tem em mente. Talvez por isso o início é um pouco moroso e eu tive um pouco de dificuldade de entender o que ela pretendia com aquilo. Eu achei que haveria flashes do presente com detalhes sobre a investigação do sumiço de Lila, mas isso não acontece e o foco é todo na visita ao passado e depois que eu entendi que seria assim a leitura fluiu melhor.

As duas moram em um cortiço na parte pobre da cidade e por isso a história tem personagens para todos os gostos, nem todos se mantém na história o tempo inteiro e é bem interessante descobrir como eles vão se encaixando na rotina e na vida das duas com o passar dos anos. O que mais me deixou intrigada durante esse primeiro livro foi a insegurança de Elena, como ela se torna dependente de Lila ainda que ela tenha plena capacidade e inteligência de seguir seu caminho. É uma dependência emocional que me assustou em alguns momentos, porque parece que ela só vai ser capaz de ser feliz se corresponder as expectativas da amiga… É até difícil explicar porque é algo bem íntimo e parece que nem ela percebe como ela é obsessiva em alguns momentos.

Acompanhar as mudanças físicas das duas e como Lenu se sente no meio desse turbilhão é interessante, revisita a nossa própria puberdade, ainda que a história comece na década de 50. As angústias são muito comuns a qualquer adolescente que vê seu corpo se alterando rapidamente. A mudança de pensamento também é boa de acompanhar, as coisas vão mudando lentamente e ela mesma não percebe isso.

O livro mostra através do olhar de uma criança/adolescente uma Itália com grande desigualdade social, onde o índice de violência nos bairros mais pobres e considerável principalmente porque existem muitos crimes cometidos por questão de honra. Na fase da adolescência isso vai ficando muito claro quando Lila sente medo de andar de carro com um dos personagens porque se ela fosse vista seu irmão teria a obrigação de bater no garoto. A visão de mundo reduzida dá um charme a mais para o livro, mas é legal perceber como a visão de Lenu se amplia um pouco quando ela sai do bairro com o pai pela primeira vez e as surpresas que ela tem ao viajar para outra cidade sozinha.

Ao longo da história dá para perceber que, apesar dos desentendimentos com a mãe e da falta de dinheiro, Lenu é uma menina de sorte. A realidade da família é dura, mas ela nem de longe sofre os abusos e violências que Lila sofre e isso acaba por facilitar, em parte, o rumo que sua vida vai tomando ao longo do caminho. É bem interessante ver como as duas vivem uma amizade real, daquelas que tem distanciamentos e aproximações ao longo do tempo, não é nada perfeita, mas é devocional, principalmente por parte de Elena, mas Rafaela também faz a parte dela quando você menos espera.

O final do livro é um capítulo a parte, por ser um romance de formação a história é mais linear, mas as duas se metem em várias confusões ao longo da vida e quando o livro terminou a vontade que tive foi de pegar o outro imediatamente para saber se ele começa no mesmo ponto para ver como a situação vai se desenrolar. Com isso, você já percebe que o livro tem o final aberto, não é o tipo de série que se fecha a cada livro, como Harry Potter, que apesar de você saber que tem mais coisas para acontecer, cada livro tem um início e um fim bem delineado. Se todos os livros seguirem essa mesma lógica talvez seja uma boa ideia ter todos ao alcance da mão antes de iniciar a leitura do primeiro. Não vejo a hora de mergulhar em Nápoles novamente.

Sinopse

A Série Napolitana, formada por quatro romances, conta a história de duas amigas ao longo de suas vidas. O primeiro, ‘A Amiga Genial’, é narrado pela personagem Elena Greco e cobre da infância aos 16 anos. As meninas se conhecem em uma vizinhança pobre de Nápoles, na década de 1950. Elena, a menina mais inteligente da turma, tem sua vida transformada quando a família do sapateiro Cerullo chega ao bairro e Raffaella, uma criança magra, mal comportada e selvagem, se torna o centro das atenções. Essa menina, tão diferente de Elena, exerce uma atração irresistível sobre ela.
As duas se unem, competem, brigam, fazem planos. Em um bairro marcado pela violência, pelos gritos e agressões dos adultos e pelo o medo constante, as meninas sonham com um futuro melhor. Ir embora, conhecer o mundo, escrever livros. Os estudos parecem a melhor opção para que as duas não terminem como suas mães entristecidas pela pobreza, cansadas, cheias de filhos. No entanto, quando as duas terminam a quinta série, a família Greco decide apoiar os estudos de Elena, enquanto os Cerrulo não investem na educação de Raffaella.
As duas seguem caminhos diferentes. Elena se dedica à escola e Raffaella se une ao irmão Rino para convencer seu pai a modernizar sua loja. Com a chegada da adolescência, as duas começam a chamar a atenção dos rapazes da vizinhança. Outras preocupações tornam-se parte da rotina: ser reconhecida pela beleza, conseguir um namorado, manter-se virgem até encontrar um bom candidato a marido.
Mais que um romance sobre a intensidade e complexa dinâmica da amizade feminina, Ferrante aborda as mudanças na Itália no pós-guerra e as transformações pelas quais as vidas das mulheres passaram durante a segunda metade do século XX. Sua prosa clara e fluída evoca o sentimento de descoberta que povoa a infância e cria uma tensão que captura o leitor.

Livro: A Amiga Genial
Autora: Elena Ferrante
Editora: Biblioteca Azul
Páginas: 331

Capa: 9,00
Continuidade: 9,00
Personagens: 9,50
Cenários: 9,50
História: 9,00
Narrativa: 9,50
Diálogos: 9,00
Revisão: 9,00

Nota Final: 9,18 – Muito Bom.

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