Conto | O Trovador

Olá, meu bom leitor.

Hoje vou tentar retomar a rotina do blog de postar um conto por semana. Tentarei fazer de 2017 um ano mais assíduo.

Para Começar um conto que escrevi ainda na época dos dias das bruxas do ano passado, ele foi escrito a pedido do Luciano da Academia Literária DF para fazer parte do mês de terror do blog dele, preciso nem dizer que fiquei muito feliz com o convite né, espero que você goste do conto do trovador.

O Trovador

Não posso me recordar em qual tempo, ou de quando sou, a única coisa que posso realmente precisar e te dar uma certeza sobre algo, é a que estou vivo. Porém o termo vivo é muito forte para o estado em que estou, na verdade o tempo seguiu e o mundo o acompanhou de mãos dadas, e nós ficamos aqui no meio, como meio que abandonados por todas as razões que fazem o tempo ser o tempo. Imagine você forçado a se esconder em um contêiner, exatamente, dentro de um abafado e claustrofóbico contêiner que é único aparato capaz de te proteger das chuvas torrenciais que de repente tomaram de conta de tudo. É complicado falar sobre algo, especificar sobre algo sendo que são várias coisas que tomam conta da minha mente e eu realmente não sei se ainda vivo na realidade, ou na música do trovador.

Sinto que a minha mente tem se tornado ao passar dos dias, se ainda existem dias, mais perdida, e muitas vezes não sei se penso para fazer certas coisas ou se ajo em um nível do instinto que desliga minha alma do cérebro. A única coisa que posso afirmar, se for possível, é de estar completamente atento quando escuto os uivos dos lobos, lembro que foi a primeira canção que ouvi quando o trovador chegou, lembro-me de sentir meu corpo arrepiar quando ele narrou que os grandes lobos cinzas sem pelos que andavam nas patas traseiras uivavam para avisar, a presa já sentenciada a morte, soubesse que seria atacada por eles, o trovador recitou um longo poema dedicado apenas a impressão de como era a morte vista daqueles que eram atacados pelos lobos e seus grandes olhos amarelos.

Impressionante como no outro dia, no acampamento ouvimos o primeiro uivo, no momento até me perguntei se não já havíamos ouvido isso ou se foi o trovador que trouxe aquela praga de músculos, dentes e garras para nós, porém minha lembrança já era duvidosa, tinha a impressão de ouvir sobre os lobos deste o meu berço, ou a primeira vez foi na noite anterior? Perdemos três pessoas naquele dia. Não me lembro quem eram e fui sentir a falta de um especialmente quando fui me deitar, um deles era meu irmão.

Não quero transformar estas minhas últimas palavras em algo dramático, porém preciso dizer, que meu irmão me fez falta, não sei mais sua feição, não sei como era nossa relação, mas sei que ele me faz falta hoje, pelo menos tenho a impressão de que ele me faz falta, como todos os que conviveram comigo me fazem falta. Me vaga pela mente que alguns eram mais destemidos e enfrentaram os perigos de frente, eu, pelo o que me recordo de mim, sempre corri e comecei a criar um medo do trovador.

Tudo o que ele cantava era sobre morte.

Tudo o que ele cantava virava morte.

Tudo o que ele representa é a morte.

Isso nunca me esqueci.

Porém hoje ouvi os uivos, soaram tão perto, tão altos e ao mesmo tempo tão dentro de mim que apenas esperei pelos grandes olhos amarelos focarem em mim. Nada aconteceu e os uivos continuaram. Eu corri e a chuva torrencial caiu. Me escondi no contêiner.

O metal vibrava a cada uivada, a chuva batia e parecia um estouro que passava por cima do contêiner. Eu me encolhia cada vez mais no canto mais escuro possível, se possível eu iria me fundir ao metal apenas para sobreviver. Acredito já era o último ser humano vivo.

Do outro lado vi a silhueta do trovador, a capa molhada e pesada balançando com o vento e sua mão indo de encontro ao braço do violão. Ele começou a cantar, e logo eu percebi que ele cantava a sonata da minha vida. Ele começou falando sobre o tempo antigo onde eu me sentava na frente de máquinas para ler, ele começou de uma parte específica, me recordei na hora. Tudo começou sobre um conto que li a tanto tempo que nem me lembrava, ali na frente da máquina eu li sobre um trovador, li de como tudo se destruiria e li que só haveria um sobrevivente, mas nunca pensei que ali já lia a minha sonata da solidão.

O trovador terminou de cantar.

Eu chorava de desespero.

Um lobo entrou.

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2 Comentários

  1. Oi, Paulo, disse no grupo que leria seu conto e aqui estou eu para comentar o que achei dele.

    Também escrevo contos em meu blog e considero o gênero suspense/terror dos mais difíceis pois temos que manter o leitor aflito, com a respiração ofegante, o tempo todo. É para poucos, eu sei disso, rs.

    Em algumas passagens, faltou manter o suspense, mas o “conjunto da obra” é bom e o final é poético.

    Um Conselho: tenta ser mais objetivo nas descrições.
    Uma regra p/ todo contista: não conte o que está acontecendo na cena, mostre ao leitor!

    Abraço, amigo.
    Boa sorte com teu blog.

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